quinta-feira, 21 de abril de 2011

Despretensioso


Nada poder ser tão pertubador para a questionadora imprensa do que se ver também questionada. No livro "Uma Vida Nova e Feliz", o jornalista Ricardo Kotscho, (Secretaria de Imprensa da Presidência,"O Estado de S. Paulo", "Folha de S. Paulo", "Jornal do Brasil", "Isto É", "Época"), usa de sua vastíssima experiência para sutilmente cutucar os pilares atuais da imprensa.
O livro, na verdade, é um compilado de crônicas publicadas entre 2005 e 2007 no extinto site NoMínimo. A proposta de Kotscho era falar sobre amenidades de seu dia a dia, agora longe da grande imprensa, que vão desde buscar a neta na escola até as conversas na feira.
Mas, em alguns dos textos, Kotscho faz um trabalho despretensioso de repórter trazendo à tona histórias bem contadas de personagens reais.
E, para inquietude de qualquer repórter ou editor, mantém nos seus textos uma linha coerente de avaliar e reavaliar o abismo instituído entre o que sai nos jornais e aquilo que realmente interessa para o leitor.
Na época, fora de uma redação convencional, o jornalista se permitiu olhar com mais amplitude o universo das pautas jornalísticas e observou, com mais clareza, a mesmice do noticiário, a falta de criatividade nos temas abordados, a linha tênue entre a criticidade e a amargura _que os jornalistas cruzam sem se dar conta_, a falta de grandes reportagens com temas e personagens interessantes e, o pior, a indiferença do leitor com aquilo que é exposto de forma banal.
Apesar do título de livro de auto-ajuda, da linguagem simples e de seus textos descompromissados, Kotscho propõe reflexão à imprensa de uma forma bem sútil.
Diferentemente daqueles livros de jornalismo investigativo, que instigam os jornalistas a encararem a reportagem como uma missão quase divina, "Uma Vida Nova e Feliz" traz perguntas incômodas e bem humanas sobre a real importância dos assuntos publicados jornais e sobre quem realmente irá se interessar por eles.

quarta-feira, 2 de março de 2011

O Nazismo sob 5 olhares



Por mais que o foco amplo no Nazismo tenha criado um desequilíbrio na relação das artes com a História da Humanidade, é indiscutível o quanto essa tragédia sem precedentes é uma aberração, que foge a nossa compreensão, mas que pode alimentar nossa curiosidade, reflexão e perplexidade. Se as artes falharam ao não abordar outras tragédias com tanto afinco, ainda há tempo para se corrigir isso. Porém, seria ignorância não reconhecer o brilhantismo dos que se atreveram a reconstruir traços de um período tão pesado da História. O Nazismo foi algo tão complexo e destrutivo que o cinema e a literatura encontraram ângulos absolutamente diferentes e intrigantes para abordá-lo. Cada obra se mistura com o olhar de seus próprios personagens e se torna apenas mais um fragmento dolorosamente real. Seria superficial se apegar a apenas uma ou duas versões.

Pelo judeu
Livro “Em Busca de Sentido” – Victor Frankl
Nada mais pessoal do que o caso do sobrevivente psiquiatra Victor Frankl, que usou sua própria experiência em um campo de concentração para fundar uma corrente dentro da psicologia, a logoterapia, descrita a partir do livro “Em Busca de Sentido” de 1946. Frankl relata em sua obra detalhes mínimos impensados sobre o dia a dia dos prisioneiros como a perda do desejo sexual, devido à falta de alimentação, e a depressão depois de perder tudo, desde a profissão até a família. A história mexe com nossa empatia, a capacidade que temos de nos colocarmos no lugar do próximo, e aponta o quanto os valores pessoais podem ser distorcidos em situações extremas. Não há como não se comover com situações tão desumanas revividas corajosamente por Frankl, que usa seu próprio exemplo para avançar sobre as teorias freudianas e defender os objetivos, planos, sonhos como a maior tábua de salvação para o ser humano em todas as situações.

Pelo nazista
Documentário “O Inimigo do meu Inimigo” - direção Kevin Macdonald
Klaus Barbie foi um torturador nazista, que barbarizou em Lion (França), mas que conseguiu sair ileso da Europa e ainda ter uma vida de qualidade excelente na América do Sul, quando o governo de Adolf Hitler ruiu. Conhecido como o Açougueiro de Lion, Barbie torturou e matou 44 crianças judias em um orfanato de Auschwitz e um dos maiores líderes da resistência ao Nazismo em Lion na época. Ao fugir para a América, com sua família no entanto, o nazista conseguiu, de forma surpreendente, a proteção dos EUA, para atuar na luta contra o comunismo. Foi o cabeça da operação que prendeu e matou Ernesto Che Guevara e implantou o movimento nazista nos remotos Andes. Só foi preso já muito velho, após ser colocado frente à frente com vítimas que sobreviveram e pouco depois faleceu.

Pelo católico
Filme “O Homem que se Tornou Papa”- direção Giacomo Battiato
Quem conhece Karol Wojtyla apenas como o Papa João Paulo 2º tem a oportunidade de conhecer, com esta película, sua incrível trajetória antes de chegar ao posto mais alto da Igreja Católica, mas acima de tudo consegue visualizar melhor a nebulosa e complexa relação entre a Igreja Católica e os nazistas. A maior parte do filme é revestida pelo drama do Nazismo na Polônia. Wojtyla, muito antes de sonhar em ser um mero padre, já tinha que conviver com as mazelas do regime, perdendo amigos e parentes pela selvageria e pela miséria absoluta. É muito interessante notar como o roteiro chega finalmente à vida dos que não eram judeus, nem nazistas. Wojtyla se torna uma representação dos personagens secundários, que também sofreram bastante com o regime de Hitler. Um período duro para o povo polonês, mesmo para quem era católico e ficou do lado de fora dos campos de concentração.


Pelo Fürher
Filme “A Queda” – direção Oliver Hirschbiegel
Mas, afinal como era Adolf Hitler? O que ele comia, o que ele bebia, com quem vivia? Como eram seus filhos, seus amigos, suas músicas preferidas? Sim, apesar de tanta brutalidade, Hitler era um ser humano, com suas fraquezas e suas limitações, inclusive de saúde (Hitler tinha Mal de Parkinson, quando viu seu império desabar). Só foi possível entender um pouco mais sobre esse mitológico homem graças a Traudl Junge, a secretária pessoal do Führer, que presenciou suas últimas horas de vida, quando os aliados chegam a Berlim. O filme deixa claro talvez uma das nuances mais incômodas do período: o quanto os nazistas e suas famílias realmente acreditavam no que pregavam. Não era algo impensado ou meramente estratégico visando o poder. Tratava-se de uma ideologia levada às últimas conseqüências.



Pelo vingador
Filme “Bastardos e Inglórios” – direção Quentin Tarantino
Esta, sem dúvida, é uma das obras mais irônicas sobre o Nazismo. Mostra de forma crua e caricatural como os “heróis” aliados ou uma judia sobrevivente de massacre podiam ser tão violentos e frios quanto qualquer nazista de plantão. Com as cenas de violência banalizadas no velho estilo Tarantino, a vingança ganha força se torna vilã, é satirizada e faz dos nazistas presas fáceis no fim do regime. O senso de revanche vira uma doença, trazendo à tona ainda mais patologias desenvolvidas a partir do regime Nazista.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Árduo trabalho de investigação


Quando você começa a assistir “Vidas que se Cruzam”, logo começa um espontâneo e árduo trabalho de investigação. A ideia é tentar entender o que as personagens Gina, Sylvia e Maria têm em comum. Elas estão em contextos absolutamente diferentes, em tempos diferentes, porém com uma pitada de elementos familiares.
Vamos às descrições iniciais. Sylvia (Charlize Theron) é uma daquelas mulheres cheias de paradoxos, que tem grande equilíbrio e estabilidade na vida profissional, enquanto vive uma crise de identidade sem precedentes em sua vida pessoal. Gina (Kim Basinger) é uma mãe de família de meia idade, que tem sua vida sugada pelos cuidados com a casa, os quatro filhos, o marido e que, apesar seu estilo conservador, arranja um amante. Por fim, Maria (Tessa La), uma menina de 11 anos que é fiel escudeira do pai, por quem aparentemente foi criada e educada.
As paisagens também ajudam a complicar qualquer teoria. A moderna Sylvia está na sofisticada cidade de Portland, em um frio avassalador, enquanto Maria e Gina estão em cidades pacatas sob um sol escaldante próximas ao México.
A primeira pista sobre a ligação entre as personagens é o título do filme, que em português entrega mais o jogo do que o original em Inglês: “The Burning Plain”. A segunda é alinhavada pela presença dos personagens mexicanos típicos, com direito à velha pele dourada, cabelos escuros e as falas em espanhol.
Nessa aura de mistério, a película, que trabalha inicialmente com dramas isolados, se revela de um modo inesperado, surpreendente e pode nos deixar uma indagação filosófica sobre julgar pessoas.
Do ponto de vista cinematográfico, o diretor Guillermo Ariaga (de Babel e 21 Gramas), reafirma seu compromisso com a quebra de linearidade nos roteiros. Um jeito inovador e inteligente de tornar histórias ainda mais interessantes.

domingo, 1 de agosto de 2010

Amor Teen


"Educação" é um tipo de filme que adora brincar com mistério, mas que acaba revelando verdades óbvias ao final. Altamente fiel à ingenuidade típica das adolescentes, o filme é uma excelente dica justamente para as mulheres _de todas as idades, diga-se de passagem. Jenny Carey (Carey Mulligan)é uma adolescente de 16 anos, sobrecarregada pelos estudos, excessivamente cobrada pela família e pela escola, que sonha com seu ingresso na Universidade de Oxford. Sua determinação é exemplar e inabalável, até que surge um velho problema chamado "amor". David (Peter Sarsgaard)é mais velho, charmoso, divertido e surge para Jenny como uma espécie de janela para o mundo. Com ele, Jenny descobre a alegria da noite, a diversão da bebida, o charme das obras de arte, o prazer de viajar, tudo o que é altamente encantador para qualquer jovem. E tudo caminha muito bem até que surge um pedido de casamento. O engraçado é que "Educação", que se passa nos anos 60, aborda um dilema feminino sempre atual, que é gritante na adolescência, mas que pode acompanhar mulheres mais velhas também. Quando a vida profissional e a pessoal entram em choque, as escolhas ficam mais difíceis, complexas, pesadas. Decisões que esbarram no feminismo, no medo da frustração, no pavor de reviver o passado de tantas avós e mães por aí, ao mesmo tempo em que põe na balança o preço alto da solidão a longo prazo. Impossível não se colocar no difícil lugar de Jenny.


Título original: An Education
ano de lançamento: 2009
direção: Lone Scherfig
país:Inglaterra

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Cena latina, silêncio europeu


Com seu título sugestivo, o filme peruano "A Teta Assustada" trata de um tema tipicamente latino, porém com uma linguagem carregada de introspecção, bem ao estilo europeu. O roteiro gira em torno da vida de Fausta (Magaly Solier), uma descendente de povos andinos que vive na periferia da metrópole Lima. Criada e superprotegida pela mãe, Fausta tem um choque de realidade ao perdê-la e ser ver sozinha tendo que enfrentar todas as diferenças culturais entre o seu universo de origem e o universo complexo e moderno de uma grande cidade. O medo delineia sua história de introspeção em meio aos hábitos urbanos recorrentes. Enquanto suas primas se preocupam exclusivamente em se casar, Fausta, também moça, convive diariamente com o medo de ser estuprada. Enquanto sua patroa é uma musicista clássica e da alta sociedade peruana, ela praticamente sussurra seu próprio cancioneiro no idioma quíchua (dialeto indígena falado por grupos étnicos que ocupam a Cordilheira dos Andes) e se esforça na ânsia de obter seu suado dinheiro para poder fazer o funeral da própria mãe. Fausta resiste bravamente e vive o conflito de manter sua crença em todos os mitos e hábitos andinos agora tão ridicularizados e massacrados pela cidade grande. Apesar de ser entrecortado por festas de casamento tradicionalmente latino-americanas, roupas coloridas e cumbia, é no olhar assustado e no silêncio de Fausta que "A Teta Assustada" constróe sua poética história, que venceu o Festival de Berlim e chegou a ser indicada para a estatueta de melhor filme estrangeiro no Oscar 2010.



título original: "La Teta Assustada"
lançamento: 2009
país: Peru
direção: Claudia Llosa

terça-feira, 29 de junho de 2010

Uma delícia de filme


"Julie & Julia", de 2009, poderia abrir diálogos ricos sobre pontos existenciais como o vazio interior dos trabalhadores em tempos modernos, a interferência positiva ou negativa de ídolos que cultivamos, a importância da tecnologia no dia a dia. Mas, faz mais do que isso, explora as tranformações do universo feminio, as dúvidas, dores, angústias das mulheres nos últimos 50 anos e até mesmo a reaproximação entre o universo feminino moderno e a culinária. Desde que os sutiãs foram queimados por conta da revolução feminista, a cozinha passou a ser vista como um elemento cultural arraigado ao passado. Desde que a mulher caiu de vez no mercado de trabalho, o fato de não saber, não precisar e não querer cozinhar passou a ser ostentado quase como uma bandeira, da qual se tem orgulho. São poucas as mulheres, especialmente as mais jovens, que passaram ilesas por este conceito. Não foi à toa que muitos homens começaram a ir pra cozinha de bom grado (na chamada era da cozinha Gourmet). No inconsciente coletivo das mulheres, o avental ainda seria as amarras da dona de casa, um verdadeiro trauma feminino, que começa a ser trabalhado. O ato de cozinhar, talvez injustamente abominado por anos, começa a ser repensado. A mulher repaginada, moderna, independente, começa a redescobrir a cozinha, não mais como uma obrigação, mas como um prazer. O filme mostra todas as transformações embutidas na relação das mulheres com o tempo, com as pessoas, com o trabalho, com a cozinha através das rotinas paralelas de Julia (Meryl Streep) em 1948 e Julie (Amy Adams)em 2002. Julia uma dona de casa, de visão Pollyanna, que acaba de se mudar para Paris e procura ocupar o seu tempo aprendendo gastronomia e depois batalhando por publicar um livro de receitas. Julie uma novaiorquina atarefada, altamente estressada com o trabalho, que procura um sentido para sua vida e resolve escrever um blog sobre culinária inspirado nas receitas de Julia. Nada ficou intacto nesses anos todos: o fogão e as panelas não são mais os mesmo, os pensamentos também não.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A Cor do Oriente


Um dos exercícios mais pertinentes e prazerosos que o cinema nos permite é o de buscar formas artísticas diferenciadas para se narrar fatos semelhantes. "A Cor do Paraíso", um filme iraniano, pode ter passado despercebido aos olhos de quem está acostumado respirar o cinema americano, com toda a sua faceta ocidental. Mas, eu diria que nunca é tarde para rever isso e se surpreender com uma obra que poderia estar escondida nas prateleiras das locadoras, sem cartazes ou tapete vermelho na Academia (que indica e entrega o Oscar). O roteiro trata da vida do pequeno Mohammad, um menino com deficiência visual, que consegue suprí-la através de sua perspicácia. Sábio, curioso e alegre, Mohammad é aceito em todos os níveis da sociedade, por todos os nichos onde frequenta, mas encontra a maior barreira de aceitação dentro de seu próprio lar, com o pai. Viúvo, solitário, Hashem, o pai, tem mais duas filhas e conta com sua mãe idosa para ajudá-lo, um homem obcecado com a ideia de poder se casar novamente. Mohammad e sua avó se destacam como personagens incrivelmente versáteis e habilidosos com suas vidas difíceis: ele por não poder enxergar, ela por trabalhar no campo e ter idade avançada. Enquanto Hashem é um personagem mais complexo, denso, que sofre, invariavelmente, não por limitações físicas, mas pelas psicológicas, indiscutivelmente mais crueis neste caso. Hashem é tão contraditório, que me pergunto se ele, sim, não seria o protagonista ofuscado pelo tocante Mohammad. Majid Majidi, o diretor, consegue sintetizar em três personagens o que há de mais admirável e de mais obscuro na raça humana. Tudo isso com uma fotografia espetacular nos apresentando a bela e surpreendente paisagem iraniana, que inclui de rios, matas e mares à cultura em torno da tapeçaria.