domingo, 1 de agosto de 2010

Amor Teen


"Educação" é um tipo de filme que adora brincar com mistério, mas que acaba revelando verdades óbvias ao final. Altamente fiel à ingenuidade típica das adolescentes, o filme é uma excelente dica justamente para as mulheres _de todas as idades, diga-se de passagem. Jenny Carey (Carey Mulligan)é uma adolescente de 16 anos, sobrecarregada pelos estudos, excessivamente cobrada pela família e pela escola, que sonha com seu ingresso na Universidade de Oxford. Sua determinação é exemplar e inabalável, até que surge um velho problema chamado "amor". David (Peter Sarsgaard)é mais velho, charmoso, divertido e surge para Jenny como uma espécie de janela para o mundo. Com ele, Jenny descobre a alegria da noite, a diversão da bebida, o charme das obras de arte, o prazer de viajar, tudo o que é altamente encantador para qualquer jovem. E tudo caminha muito bem até que surge um pedido de casamento. O engraçado é que "Educação", que se passa nos anos 60, aborda um dilema feminino sempre atual, que é gritante na adolescência, mas que pode acompanhar mulheres mais velhas também. Quando a vida profissional e a pessoal entram em choque, as escolhas ficam mais difíceis, complexas, pesadas. Decisões que esbarram no feminismo, no medo da frustração, no pavor de reviver o passado de tantas avós e mães por aí, ao mesmo tempo em que põe na balança o preço alto da solidão a longo prazo. Impossível não se colocar no difícil lugar de Jenny.


Título original: An Education
ano de lançamento: 2009
direção: Lone Scherfig
país:Inglaterra

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Cena latina, silêncio europeu


Com seu título sugestivo, o filme peruano "A Teta Assustada" trata de um tema tipicamente latino, porém com uma linguagem carregada de introspecção, bem ao estilo europeu. O roteiro gira em torno da vida de Fausta (Magaly Solier), uma descendente de povos andinos que vive na periferia da metrópole Lima. Criada e superprotegida pela mãe, Fausta tem um choque de realidade ao perdê-la e ser ver sozinha tendo que enfrentar todas as diferenças culturais entre o seu universo de origem e o universo complexo e moderno de uma grande cidade. O medo delineia sua história de introspeção em meio aos hábitos urbanos recorrentes. Enquanto suas primas se preocupam exclusivamente em se casar, Fausta, também moça, convive diariamente com o medo de ser estuprada. Enquanto sua patroa é uma musicista clássica e da alta sociedade peruana, ela praticamente sussurra seu próprio cancioneiro no idioma quíchua (dialeto indígena falado por grupos étnicos que ocupam a Cordilheira dos Andes) e se esforça na ânsia de obter seu suado dinheiro para poder fazer o funeral da própria mãe. Fausta resiste bravamente e vive o conflito de manter sua crença em todos os mitos e hábitos andinos agora tão ridicularizados e massacrados pela cidade grande. Apesar de ser entrecortado por festas de casamento tradicionalmente latino-americanas, roupas coloridas e cumbia, é no olhar assustado e no silêncio de Fausta que "A Teta Assustada" constróe sua poética história, que venceu o Festival de Berlim e chegou a ser indicada para a estatueta de melhor filme estrangeiro no Oscar 2010.



título original: "La Teta Assustada"
lançamento: 2009
país: Peru
direção: Claudia Llosa

terça-feira, 29 de junho de 2010

Uma delícia de filme


"Julie & Julia", de 2009, poderia abrir diálogos ricos sobre pontos existenciais como o vazio interior dos trabalhadores em tempos modernos, a interferência positiva ou negativa de ídolos que cultivamos, a importância da tecnologia no dia a dia. Mas, faz mais do que isso, explora as tranformações do universo feminio, as dúvidas, dores, angústias das mulheres nos últimos 50 anos e até mesmo a reaproximação entre o universo feminino moderno e a culinária. Desde que os sutiãs foram queimados por conta da revolução feminista, a cozinha passou a ser vista como um elemento cultural arraigado ao passado. Desde que a mulher caiu de vez no mercado de trabalho, o fato de não saber, não precisar e não querer cozinhar passou a ser ostentado quase como uma bandeira, da qual se tem orgulho. São poucas as mulheres, especialmente as mais jovens, que passaram ilesas por este conceito. Não foi à toa que muitos homens começaram a ir pra cozinha de bom grado (na chamada era da cozinha Gourmet). No inconsciente coletivo das mulheres, o avental ainda seria as amarras da dona de casa, um verdadeiro trauma feminino, que começa a ser trabalhado. O ato de cozinhar, talvez injustamente abominado por anos, começa a ser repensado. A mulher repaginada, moderna, independente, começa a redescobrir a cozinha, não mais como uma obrigação, mas como um prazer. O filme mostra todas as transformações embutidas na relação das mulheres com o tempo, com as pessoas, com o trabalho, com a cozinha através das rotinas paralelas de Julia (Meryl Streep) em 1948 e Julie (Amy Adams)em 2002. Julia uma dona de casa, de visão Pollyanna, que acaba de se mudar para Paris e procura ocupar o seu tempo aprendendo gastronomia e depois batalhando por publicar um livro de receitas. Julie uma novaiorquina atarefada, altamente estressada com o trabalho, que procura um sentido para sua vida e resolve escrever um blog sobre culinária inspirado nas receitas de Julia. Nada ficou intacto nesses anos todos: o fogão e as panelas não são mais os mesmo, os pensamentos também não.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A Cor do Oriente


Um dos exercícios mais pertinentes e prazerosos que o cinema nos permite é o de buscar formas artísticas diferenciadas para se narrar fatos semelhantes. "A Cor do Paraíso", um filme iraniano, pode ter passado despercebido aos olhos de quem está acostumado respirar o cinema americano, com toda a sua faceta ocidental. Mas, eu diria que nunca é tarde para rever isso e se surpreender com uma obra que poderia estar escondida nas prateleiras das locadoras, sem cartazes ou tapete vermelho na Academia (que indica e entrega o Oscar). O roteiro trata da vida do pequeno Mohammad, um menino com deficiência visual, que consegue suprí-la através de sua perspicácia. Sábio, curioso e alegre, Mohammad é aceito em todos os níveis da sociedade, por todos os nichos onde frequenta, mas encontra a maior barreira de aceitação dentro de seu próprio lar, com o pai. Viúvo, solitário, Hashem, o pai, tem mais duas filhas e conta com sua mãe idosa para ajudá-lo, um homem obcecado com a ideia de poder se casar novamente. Mohammad e sua avó se destacam como personagens incrivelmente versáteis e habilidosos com suas vidas difíceis: ele por não poder enxergar, ela por trabalhar no campo e ter idade avançada. Enquanto Hashem é um personagem mais complexo, denso, que sofre, invariavelmente, não por limitações físicas, mas pelas psicológicas, indiscutivelmente mais crueis neste caso. Hashem é tão contraditório, que me pergunto se ele, sim, não seria o protagonista ofuscado pelo tocante Mohammad. Majid Majidi, o diretor, consegue sintetizar em três personagens o que há de mais admirável e de mais obscuro na raça humana. Tudo isso com uma fotografia espetacular nos apresentando a bela e surpreendente paisagem iraniana, que inclui de rios, matas e mares à cultura em torno da tapeçaria.

sábado, 19 de junho de 2010

Martinho lá da Vila



Se os mais céticos já não têm muitos motivos para se orgulhar do Brasil, que celebrem, pelo menos, o fato de terem brasileiros dos quais se orgulhar. Martinho da Vila é um desses brasileiros, um nome do qual podemos e até devemos ter orgulho. Na semana passada vi o show de Martinho na Feira do Livro de Ribeirão Preto, uma aula de diversão e leveza. Há controvérsias sobre o tamanho do público, já que o show aconteceu a céu aberto, na esplanada do Theatro Pedro II. Um dos fatos que chamou a atenção foi a presença de um público muito eclético e diversificado. De intelectuais saídos dos condomínios fechados na zona Sul até a molecada de celular ultramoderno da periferia. Martinho é o cara. Faz samba de alta qualidade muscial, com letras simples e altamente populares. No show, trouxe sua faceta mais romântica, brincando com arranjos, desconstruíndo as entranhas do samba. Mas, também relembrou com maestria, como se esperava, sucessos como "Madalena", "Devagar". "Canta, Canta, Minha Gente", "Mulheres", "Disritmia" e a pra lá de clássica "Casa de Bamba". São 46 CDs gravados em uma carreira incansável, que começou em 1969.Com 72 anos, Martinho mantém sua voz arrebatadora, alegria contagiante e gingado impecável. No dia seguinte porém, Martinho ainda deu uma palestra para falar um pouco sobre seu ainda desconhecido trabalho como escritor. São nove livros publicados. Uns infantis e outros para adultos, com temáticas mais politizadas. Não se enganem os mais céticos com Martinho, por trás do cara sorridente e sossegado, que adora cantar o amor e as coisas simples da vida, existe um homem intelectualizado, crítico e preocupado com o preconceito racial e social neste seu pobre país. Dá gosto de ver Martinho, duro, sem perder a ternura.


Segue a lista de livros do Martinho:
"Vamos Brincar de política?" Infanto-juvenil
"Kizombas, andanças e festanças" Auto Biográfico
"Joana e Joanes, um romance fluminense" Romance
"Memórias póstumas de Teresa de Jesus" Romance
"Os Lusófonos" Romance
"Vermelho 17" Romance
"A Rosa Vermelha e o Cravo Branco" Infantil
"A serra do rola-moça" Romance
"A rainha da bateria" Infantil

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Ofegante


Além de causar mais uma boa e profunda reflexão sobre a irracionalidade dos conflitos humanos, o premiado "Guerra ao Terror" (direção de Kathryn Bigelow), Oscar de melhor filme em 2010, é um filme denso e ofegante,uma verdadeira tortura psicológica para quem assiste.
A história que mostra o dia a dia de um esquadrão anti-bomba do exército norte-americano no Iraque, expõe desde as diferenças hierárquicas até a insegurança como constante na vida dos soldados no Iraque. Já o close nas expressões dos soldados,o cenário de destruição, os diálogos éticos que permeiam o filme e a escolha de atores desconhecidos o tornam muito parecido com um documentário.
A agonia a quem assiste se dá porque a cada dia os soldados enfrentam uma nova situação limite em que ficam com suas vidas por um fio. E assim sucessivamente, perdendo amigos, perdendo "inimigos", vendo a tragédia humana a cada segundo.
Ainda, que alimentando a eterna ótica ianque dos soldados-heróis no cinema, "Guerra ao Terror" nos faz um favor ao escancarar de um jeito mais humano a situação delicada dos soldados, que, por uma questão de sobrevivência, convivem com o fantasma da desconfiança em tempo integral com relação aos iraquianos. Um martírio para os iraquianos _sem liberdade em sua própria terra_ e um martírio para os soldados _que ficam com a vida por um fio em uma terra estranha.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Living in Ecstasy


Finalmente no último sábado pude por as mãos no CD-DVD "Pandemonium" do Pet Shop Boys, que foi lançado em fevereiro em Londres, mas que só tem chegado às lojas brasileiras agora. Eu, que fui ao show em São Paulo, tinha certeza de que seria o melhor tour de Neil Tennant e Chris Lowe, o que vem se confirmando. Recentemente, eles anunciaram um prolongamento da tour em 2010, o que aparentemente não estava nos planos do duo. "Pandemonium" é tecnicamente arrojada, musicalmente talentosa. Cenários e figurinos futuristas à base de cubos, coreografias altamente criativas, quatro bailarinos impecáveis, projeções futuristas, um jogo potente com luzes e até chuva de papel picado margeiam o espetáculo de Tennant e Lowe. Nunca o PSB teve um show tão hight tech. Pandemonium superou as duas primeiras turnês que passaram pelo Brasil: "Discovery Tour"(1994) e "Fundamental Tour" (2007).
Mas, isso não é tudo. "Pandemonium", o DVD, teve uma qualidade de gravação efetivamente melhor do que a de "Night Life Tour", produzido no México. Imagens mais limpas, mais próximas, sem efeitos ou recortes, tudo em alta definição, nos trazem uma visão mais clara da performance de Lowe e Tennant.
Já do ponto de vista musical, o Pet Shop Boys parece ter criado uma solução para reaproveitar ao máximo seu repertório de 29 anos, em meio a tanta composição e tantos fãs de gerações diferentes. O jeito foi apostar do início ao fim de em mash-up, recurso que permite a fusão de duas músicas em uma só.
Por exemplo, logo na abertura, "Heart" (CD "Actually") vem com a introdução de "More Than a Dream" (CD "Yes", de 2009).
A música "Pandemonium" ("Yes") chega ao palco com uma introdução da velha "Can You Forgive Her" (do CD "Very", 1994) em ritmo de blues!
"Domino Dancing" (do CD "Introspective") molda a regravação de um trecho da belíssima "Viva La Vida", do Cold Play.
"Go West" (de "Very") vem com as batidas de "Paninaro".
Outra fórmula usada no show, essa sim já conhecida de outras turnês, foi a de voltar ao passado sem ficar preso a ele, reciclando sucessos mais do que consolidados como "Left To My Own Devices" (CD "Introspective", 1988), que ganhou uma roupagem maravilhosamente dançante.
Para quem é brasileiro ainda vale destacar o mimo de poder ver Tennant e Lowe executando "Se a Vida É", a única canção deles com uma frase em português, e ainda a novidade da vinheta que chama o Brasil nos jogos internacionais de futebol para a introdução de "Suburbia".
E dessa forma, quem ficar triste por não ver incluídas faixas incríveis como "King of Rome" ou "My October Simphony", dentre tantas músicas apaixonantes, poderá se divertir com novidades ao vivo como "Two Divided By Zero" ou "Do I Have To?", que normalmente não ficam fora do set list.
O show foi gravado no Arena O2, às vésperas do Natal de 2009, pouco depois da dupla ter retornado de sua passagem pela América Latina. Segue o trailler:

domingo, 11 de abril de 2010

Revira e volta



Eu adoro uma surpresa no cinema, mas tenho que admitir que surpreender o público não é uma missão fácil. Os riscos são muitos e das duas uma: ou o filme fica verdadeiramente surpreendente ou pode se tornar uma mistura de mediocridade com surrealismo.
Por exemplo, "A Estranha Perfeita" (direção de James Foley)é medíocre e surreal no meu entendimento, enquanto outro filme que trabalha os mesmos elementos, "Fora de Rumo"( do diretor Mikael Hafström), consegue, sim, ser um filme verdadeiramente surpreendente. Ambos exploram um clima sensual entrecortado por momentos de tensão.
No primeiro caso, nem a presença dos badalados Halle Berry e Bruce Willis poderia dar um jeitinho. "A Estranha Perfeita" começa bem, avança para o muito bem, mas no final passa do ponto e beira o rídiculo. Cá entre nós, um bom filme que se propõe a fazer suspense tem de expor todos os detalhes, todas as possibilidades para que o telespectador possa desenvolver suas próprias linhas de raciocínio. Se ao chegar no final, o roteiro traz uma série de detalhes não revelados, o público fica com uma sensação de deslealdade, de que jamais poderia desvendar os mistérios não por ter farejado errado, mas por não ter acesso à "investigação" inteira. Em "A Estranha Pefeita", a jornalista Rowena Price tenta descobrir quem matou sua amiga de infância, com grande possibilidade de ter sido um magnata da publicidade. Mas, ao longo da trama, as possibilidades mudam tanto, são tantas reviravoltas, que o final é absolutamente imprevisível muito mais pela falta de elementos de embasamento do que pela inteligência admirável do autor.
"Fora de Rumo" é um filme pelo qual ninguém daria nada. Charles Schine (Clive Owen)é casado e Lucinda Harris (Jennifer Aniston)também , mas se conhecem, se sentem atraídos e não resistem ao pecado do adultério. A diferença é que logo no início já ocorre a única reviravolta do fime, quando Schine descobre algo impensável dessa relação e passa quase toda a trama tentando sair da encrenca na qual se meteu. A rigor, uma história mais verossímil, mais ofegante, surpreendente mesmo com todos os elementos a que o público tem direito.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Coco pela metade


A não ser por mais uma excelente atuação de Audrey Tautou, "Coco Antes de Chanel" me parece um filme frio demais para tratar da vida de uma mulher, ainda mais quando esta mulher é de vanguarda como a estilista Gabrielle Chanel, a Coco. O filme, como propõe o título, mostra Coco antes da fama. As cena iniciais são muito belas e emotivas, mostram Coco e sua irmã, Adrienne, ainda pequenas sendo abandonadas em o orfanato pelo próprio pai e um pouco da expectativa que elas alimentaram de que ele um dia voltasse para resgatá-las. Mas, a partir daí, o filme se perde. Isso tudo ainda bem no começo. Detalhes importantes da infância de Coco são "pulados". Não se mostra, por exemplo, como se deu o contato de Coco com o mundo da costura, o que, aparentemente, teria ocorrido através das freiras do orfanato. O máximo que vemos é uma certa atenção demasiada da menina com relação ao corte e às cores dos hábitos das freiras, o que inspiraria mais tarde sua fixação por preto e branco. O filme é confuso, não deixa claro também se Coco é oportunista ou ingênua. Também senti falta de elementos tradicionais do cinema europeu como aquelas lacunas de silêncio, que só eles sabem colocar tão bem em um roteiro. O fato, porém, é que "Coco Antes de Chanel"teve ainda uma terceira falha relevante, senão devastadora para o filme: o final inconsistente. A glória de Channel, que é a sua grande volta por cima, e que é o momento esperado, fica apagada em uma cena depressiva em que a protagonista na prática ainda vê o amor ofuscar seus louros. Pode até ser que a minha visão seja conservadora, mas acho difícil que alguém não queira ver o final feliz de alguém que batalhou, ainda mais quando sabemos que este final feliz de fato aconteceu. Isso aconteceu em "Piaf, Um Hino Ao Amor", por exemplo, onde curiosamente a protagonista tem alguns pontos em comum com Coco, como o abandono na infância, a proximidade com bordéis e a França como cenário, é claro. Pelo menos do ponto de vista social e profissional, Chanel foi um ícone, quebrou tabus, bateu o pé até ser reconhecida e conseguiu. Mas, essa parte da história não faz parte do filme.

domingo, 4 de abril de 2010

Não Deixe o Tango Morrer


O tango está para Buenos Aires-Montevidéu como o samba está para Rio de Janeiro-São Paulo. Essa comparação, que poderia ser feita em qualquer conversa rasa de bar, fica mais fácil de se assimilar quando assistimos o documentário sobre tango "Café de Los Maestros" (traduzido no Brasil para "Café dos Maestros"). Não estamos falando simplesmente de ritmos. São, praticamente, estilos de vida. Mais: verdadeiros elementos de resistência em um continente varrido pelo colonialismo. "Café dos Maestros" foi idealizado e dirigido por Gustavo Santaollala, que venceu o Oscar por canções em "Diários de Motocicleta", "O Segredo de Brokeback Mountain" e "Babel". O documentário ainda traz umas pitadas de Brasil com co-produção de Walter Salles Júnior e patrocínio da Petrobras.
É uma viagem de descobertas fascinantes. Sim, porque o tango, bem como o samba, tem uma história imensa, com um repertório gigante e músicos absolutamente apaixonados. O documentário reúne a nata de "tangueiros" dos anos 40 e 50, hoje já velhinhos, porém com o mesmo vigor musical. Estamos falando Leopoldo Federico, Lágrima Ríos e seu violonista Aníbal Arias, do dueto Libertella e José Luis Stazo, do pianista Carlos García, dentre outros nomes. Para nós, brasileiros _que em média temos um conhecimento superficial sobre o tango_ o documentário reafirma justamente o fato de conhecermos somente a pontinha de um verdadeiro iceberg cultural. Já na Argentina e no Uruguai, essas figuras, merecidamente, ainda hoje são amadas por um público saudoso, que reúne fãs de gerações diferentes. Ao final,uma apresentação no teatro Cólon (Buenos Aires) mostra um a um estes astros de cabelos grisalhos, que jamais se aposentarão do tango.

sábado, 3 de abril de 2010

Os arquivos de Lilly Rush


Existe um seriado policial chamado "Cold Case" (traduzido para "Arquivo Morto" no Brasil)que tem sido um verdadeiro vício para mim nos últimos três anos. O mote da série é o dia a dia de um departamento da polícia da Filadélfia, que se especializa em reabrir casos de homícios arquivados sem solução. A maioria dos crimes ocorreu entre 1950 e 2005. Os episódios, sob a direção de Jerry Bruckheimer, pinçam uma brecha na Justiça. Os roteiros sempre mostram familiares, amigos, conhecidos engasgados com o sistema por perderem alguém querido e nunca terem visto alguém ser preso pelo crime. Logicamente, é um seriado que tem suspense, mas diria que seu grande atrativo é o aspecto emocional.
Se nos EUA, arquivar investigações de homicídios já é algo comum _como mostra o seriado_ imagine no Brasil, onde convivemos com uma avalanche de injustiças. Neste sentido "Cold Case" tem a mesma receita do brasileiro e jornalístico "Linha Direta", que trabalhava com casos verídicos e que era muito bem produzido diga-se de passagem (exibido entre 1999 e 2008).
Um diferencial de outros seriados é que "Cold Case" faz um jogo entre presente e passado, rejuvenescendo e envelhecendo personagens, cenários, costumes e até as músicas. Tudo é reconstituído nas lembranças dos personagens que prestam depoimento e, geralmente, com os mesmos atores. A técnica é excelente e nessas idas e vindas, é possível se deparar com elementos culturais importantes de cada época como o feminismo, racismo, Ku Klux Klan, hierarquias, narcóticos, estereótipos, anabolizantes A trama é sempre tão bem amarrada, que nos primeiros episódios que assisti, cheguei a ficar em dúvida se não se tratava de histórias reais.
A protagonista Lilly Rush (Kathryn Morris)é uma mulher solitária e cheia de limitações em sua vida pessoal, mas altamente determinada a trabalhar duro no meio de policiais durões e assassinos mentirosos.
Voltando à música, o "Cold Case" é o seriado que sabe usá-la para enriquecer suas tramas como nenhum outro. Primeiro porque os episódios são regados a ambientações moldadas por elas. Vamos aos anos 50 com Jerry Lee Lewis, aos 80 com Depeche Mode, aos anos 90 com Nirvana. E no final, sempre bem sucedido, existe uma música com uma mensagem de justiça e esperança para dar um toque final.
E sempre ao som de uma bela música que Lilly ou um seus parceiros, como Scotty Valens (Danny Pino), têm visões da vítima agora satisfeita com a Justiça sendo colocada em prática, o que pode ser entendido como um emblema espírita ou nada mais que um toque de imaginação num momento de alívio, quando a vítima supostamente descansará em paz.

SBT:
* Segunda à sexta-feira, logo após Uma Rosa Com Amor, às 21:15 - 1ª temporada -
* Domingo, logo após Harper's Island, às 01:00 - 4ª temporada

Warner Channel:
* Segunda-feira, às 21:00 - 7ª temporada

domingo, 28 de março de 2010

Um bolero arrebatador


Acabo de ver a Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) se apresentar ao ar livre no parque Luís Carlos Raya, em Ribeirão Preto, sob a regência do caloroso e didático maestro Marcelo Lehninger. No programa a rapisódia "Espanha" do francês Emmanuel Chabrier, "Romeu e Julieta" do russo Piotr Ilitch Tchaikovsky (um dos meus compositores prediletos) e o "Bolero", do também francês Maurice Ravel(na foto acima). Por sorte, cheguei adiantada e tive o prazer de assistir esta última por duas vezes, na passagem de som e na apresentação. Mal acreditei. Durante minha gravidez, em 2001 eu ouvi Ravel todas as noites. E como é bom ouví-lo. No caso do "Bolero" eu diria que é uma canção brincalhona pelas cifras, hipnotizante pelo ritmo. E, nem sei por que, é uma obra relativamente pop no pobre repertório clássico do brasileiro. Independente de sua popularidade, o "Bolero" cresce e arrebata os ouvidos mais sensíveis. Os mais atenciosos, em casa mesmo, já poderiam reparar no jogo que o genial Ravel nos preparou, revezando os instrumentos em apenas dois compassos repetidos incansavelmente 169 vezes. Mas, ao vivo, ali, cara à cara com os músicos da Osesp, fica ainda mais visível e impressionante o jogo do compositor. Instrumento por instrumento ganha o seu momento célebre na música, desperta a curiosidade, a consciência de cada som que se ouve. Trompete, violino, violoncelo, trombone, harpa, tambor, pratos, piano. Todos se destacam individualmente e, em seguida se misturam num único som inseparável. Não há quem resista em acompanhar com as mãos as batidas em progressão desta obra,que segundo pesquisadores foi composta em 1928 a pedido da bailarina Ida Rubinstein. Algumas crianças, mesmo as muito pequenas, imitavam os sons dos instrumentos, outras observavam admiradas aquela diversidade mostrada quadro a quadro. Longo, com seus 16 minutos e 10 segundos, o "Bolero" é um exercício de fôlego e observação premiado com infinitas e inspiradoras descobertas.

A missão gringa


Assisti "A Missão" (direção de Roland Joffé) pela primeira vez em 1987, quando tinha apenas 11 anos, para um trabalho de escola. Revi recentemente, mais de 20 anos depois e, politicamente, 20 vezes mais madura. É um dos poucos filmes que aborda de forma crua a matança indígena na América Latina durante a colonização. Sim, porque convenhamos que o assunto foi ignorado ou, no máximo, explorado de forma amenizada. No caso do cinema brasileiro, a colonização, bem como a história inteira do país, ganhou uma versão light, com cores alegres quase sempre. A versão pesada vem das mãos dos gringos, que historicamente exploraram a América e que somente mais recentemente têm mostrado algum interesse em corrigir as distorções causadas.
O filme mostra o papel importante dos padres jesuítas para conquistar a confiança dos índios durante a colonização. Na verdade, é uma aula e tanto de história, com tom crítico sem igual. A Igreja Católica, como em tantos outros momentos marcantes da História Mundial, desempenha um papel central, cheio de contradições internas e muita polêmica. Inicialmente, os padres jesuítas enfrentam todas as dificuldades naturais de um ambiente hostil e selvagem para converter os nativos à fé católica. Mas no fim, o que se vê é uma divisão dentro da igreja. Enquanto a cúpula cede aos mandos das coroas portuguesa e espanhola e trai a confiança dos índios, lavando suas mãos, a base católica tenta proteger as tribos a todo custo, criando pequenos núcleos de resistência dentro das florestas. É importante observar que a mesma igreja que vira as costas para os índios, como virou para os judeus durante o Holocausto, é aquela que os abriga e os defende como nenhuma outra instituição.
"A Missão" expõe o racha, que ainda hoje, existe de forma velada na Igreja Católica entre os engajados e os omissos à realidade social.
Fora isso, o filme também ganhou Palma de Ouro em Cannes, venceu o Oscar de melhor fotografia e conta com a atuação do gigante Robert de Niro, que interpreta um violento mercador de escravos. A participação de índios verdadeiros, nativos de tribos da Colômbia, foi uma audácia feliz do diretor Roland Joffé, que, aparentemente, tratou de forma cuidadosa os trâmites necessários como a contratação e a preparação diferenciada. O resultado ficou muito natural e impactante. Uma história de reflexão, culpa e vergonha por todos os danos causados às populações indígenas.

sábado, 20 de março de 2010

Teatro na rua


Costumo pensar que pessoas podem gostar ou desgostar de diferentes formas de arte por pura falta de conhecimento. E isso me deixa aflita. Bem como defendo a democratização da comida, da educação e do lazer, também sou assídua defensora da democratização das artes. Acredito que todos têm o direito de, pelo menos, conhecer propostas diferentes e, aí sim, escolherem suas preferências.
Essa reflexão me ressurge após ter visto hoje pela manhã cerca de 200 pessoas paradas no meio da rua para assistirem uma brilhante comédia apresentada pela Cia de Teatro Bocaccione. O grupo, formado por jovens atores, improvisou um palco em pleno calçadão _demarcado por uma corda_ e incluiu música (executada pelos próprios atores) em uma performance engraçada e altamente interativa. Muita gente passou reto _com pressa para a gastança nas lojas possivelmente_, mas muitos outros pararam e, visivelmente, se permitiram rir e se divertir. O entusiasmo daquela plateia improvisada diz tudo. Diz que a leitura popular tem sido subestimada e que a oferta tem sido bastante limitada. O fato é que a maioria das pessoas "almoça" o que tem, não pôde provar outros temperos, não tem embasamento para pedir que outros "pratos". Eis um grande desafio de quem produz, divulga ou financia arte neste país.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Diálogos Divertidos


Se você é do tipo que adora comédias sobre comportamento humano, especialmente o de casais, precisa assistir "Ligeiramente Grávidos" (2007, direção de Judd Apatow). O filme fala de uma gravidez inesperada envolvendo um casal impensável. Não é um filme marcante _já que podemos classificá-lo na já imensa lista de comédias românticas norte-americanas_ porém traz diálogos extremamente divertidos e realistas. De forma em geral, aborda muito da paranóia feminina e do lunatismo que acomete os homens tradicionalmente no dia a dia. Já nas peculiaridades, esbarra em temas modernos e bem realistas como o consumo de drogas, o preconceito contra indivíduos do Oriente Médio, a relação da mulher grávida com o mercado de trabalho, a falta de envolvimento dos obstetras com a gravidez de suas pacientes, o abismo de maturidade entre homens e mulheres no início da fase adulta e por aí vai. É um filme bacana para quem quer relaxar e dar boas risadas. O roteiro traz tiradas de humor bem colocadas expondo como pessoas tão próximas têm visões de mundo pateticamente diferentes. Para quem é fã da série "Grey's Anatomy", vale destacar, que Katherine Heigl protagoniza a película na pele de Alison Scott e seu par é interpretado por Seth Rogen, que no filme, é Ben Stone. Do ponto de vista da produção, ficou impecável a evolução do corpo de Alison durante a gravidez, sua postura e seus gestos de grávida. Tem até uma cena em que ela aparece usando a barriga como apoio para dobrar uma roupinha do bebê. Pequenos detalhes reais, muito bem pensados pela produção.

domingo, 14 de março de 2010

Filme brasileiro e policial, sim senhor


É incrível como "Verônica" (de 2009, com direção de Maurício Farias) tinha todos os ingredientes para ser uma releitura de "Central do Brasil" (de 1998, com direção de Walter Salles), mas acaba seguindo uma linha de produção diferente e surpreendente. "Verônica" também traz à tona um menino muito pequeno, ingênuo e sozinho (Leandro, interpretado por Matheus de Sá) em um contexto de miséria e violência, altamente perigoso e mais brasileiro do que nunca. Para protegê-lo, Verônica surge como a heroína que entra em sua vida por acaso, como um anjo da guarda meio contrariado, tal qual Dora em "Central do Brasil". São mulheres sofridas com a condição econômica e com a solidão, mas que não conseguem ignorar essas crianças e, por mais que resistam, acabam se envolvendo com suas histórias de vida e pior, precisam jogar tudo para o alto e abrir mão de suas próprias vidas na tentativa para poderem ajudar estes meninos. E, como se não bastasse tudo isso em comum, ainda há o fato de Andréa Beltrão ter tido uma atuação brilhante como Verônica, seguindo de forma digna os passos da veterana Fernanda Montenegro em "Central do Brasil".
Mas, tirando a introdução, "Verônica" logo expõe a que veio. Estamos falando de um filme policial, cheio de adrenalina, cheio de reviravoltas bem alinhavadas com o ex-marido de Verônica, Paulo (interpretado por Marco Ricca). Um filme de boa qualidade, ainda mais neste perfil de ação, em que as produções brasileiras não costumam se arriscar muito. "Verônica" tem uma toada muito mais violenta do que "Central do Brasil". É um filme que peca na qualidade do elenco em geral, mas acerta em boas tomadas _que disparam o coração_ e na atuação competente de Andréa Beltrão.

Não há lugar como a nossa casa



Faz muito tempo que "nossa casa" tem deixado de ser simplesmente um prédio,uma mera construção, para se tornar algo muito mais relevante nos roteiros de cinema. Nas produções infantis, as casas têm se tornado elementos importantes, quando não verdadeiros personagens dos roteiros. Já em 1939, a casa subiu aos céus junto com Doroty em "O Mágico de Oz" (do diretor Victor Fleming), carregada por um violento tornado. Nos filmes de animação, por exemplo, temos em 2006 a casa que ganha vida, hábitos e reações humanas, em "A Casa Monstro"( do diretor Gil Kenan). A casa "encarna" o espírito da mulher do velho Nebbercracker e passa a praticar crueldades contra as crianças da vizinhança. Mas, apaixonado por sua mulher, Nebbercracker tenta protegê-la a todo custo e vive o dilema de ter que exterminá-la para evitar incidentes com os vizinhos.
O premiado "UP, Altas Aventuras" (direção de Peter Docter, que ganhou o Oscar 2010 de Melhor Animação e Melhor Trilha Sonora Original), caminha nesta mesma linha. Dessa vez a casa não tem movimentos próprios, mas é encarada o tempo todo pelo personagem Carl Fredricksen como se fosse sua própria mulher, a falecida Ellie, por quem ele era apaixonado. Carl planeja uma viagem sonhada desde a infância e cria seu próprio método para levar a casa junto. Passa o tempo todo zelando pela casa, que divide cena após cena com os demais personagens: o menino Russel, a ave Kevin e o cão falante Dug . O retrato de Ellie na parede é um indício de que Carl cultiva justamente na casa todas as lembranças de seu casamento feliz com Ellie. Ele não mede esforços para salvar sua casa ou sua Ellie. Chega a ser colocado em uma situação onde precisa escolher entre defender a casa e a ameaçada ave Kevin, opta pela casa. No fim, entretanto, aceita a perda de sua mulher _personificada pela casa_ e a deixa descansar no local onde sonhava viver desde sua infância: o Paraíso das Cachoeiras, na América do Sul, que foi inspirado na região da divisa entre a Guiana, Brasil e Venezuela.
Apesar dos filmes citados acima serem infantis, a temática da casa que se torna personagem tem a ver com sentimentos que nos perseguem mesmo na vida adulta. O apego com a casa onde se vive não tem idade e também se tornou coisa de adulto no assustador "Os Outros" (2001,direção de Alejandro Amenábar) ou no clássico "E O Vento Levou" (de 1939, com direção de Victor Fleming, George Cukor e Sam Wood). Quem não se lembra de Tara, a fazenda de valor inestimável para Scarlett?

quinta-feira, 11 de março de 2010

Viva Cold Play



Esta semana postaram no Youtube este mashup (mescla de músicas) chamado "Viva la Home", que mistura "Home and Dry" acústico, do Pet Shop Boys, com "Viva la Vida", do Cold Play. O resultado ficou muito bom. As músicas realmente renderam uma mistura bacana. Fora que Chris Martin (vocalista do Cold Play) e Neil Tennant (Pet Shop Boys) estão pra mim na invejável lista dos vocalistas inesquecíveis e inimitáveis da História Moderna. Vozes poderosas e únicas. Mas, indo além, posso afirmar que "Viva La Vida" já é um clássico por si só. Uma melodia belíssima, efervescente, arrebatadora e enriquecida por tambores, sinos e instrumentos de corda. O Coldplay, considerada banda de rock alternativo, passou a ser classificada como "pop barroco", depois de "Viva La Vida" e não é à toa, Viva destoa da brilhante discografia da banda, quando deixa as guitarras serem ofuscadas pelo violino.
Outro detalhe que fascina é a letra desta música. Inteligente, misteriosa, dúbia, como um enigma ao fazer referências religiosas e históricas. "Viva la Vida" pode estar falando sobre a Revolução Francesa ou sobre Heródes, o Grande, rei de Israel. Estamos falando de algo grandioso na História. Música, letra e voz nos dizem isso o tempo todo. A banda já declarou que está falando de revolucionários em geral. Mas, vamos combinar que é possível fazer uma monografia sobre a letra de "Viva La Vida". O vídeoclipe, pra fechar a conversa, também é belíssimo e acompanha toda a erudição da música, inspirada na pintura "A Liberdade Guiando o Povo" ("La Liberté guidant le peuple"), de Eugène Delacroix (da foto). O quadro é uma homenagem à Revolução de 1830, quando no período pós-Revolução Francesa, o movimento republicano conseguiu a abdicação do então rei Carlos X, que tentava restaurar a monarquia na França.

Abaixo a letra de "Viva la Vida", que merece ser analisada minuciosamente:


Viva la Vida
Coldplay
(Composição: Chris Martin)

I used to rule the world
(Eu costumava dominar o mundo)
Seas would rise when I gave the word
(Os oceanos se abriam quando eu madava)
Now in the morning and I sleep alone
(Agora, pela manhã, durmo sozinho)
Sweep the streets I used to own
(Varro as ruas, que já foram minhas)

I used to roll the dice
(Eu costumava jogar os dados)
Feel the fear in my enemy's eyes
(Sentir o medo nos olhos dos meus inimigos)
Listen as the crowd would sing
(Ouvir enquanto a multidão cantava)
"Now the old king is dead! Long live the king!"
("Agora o rei mais velho está morto! Vida longa ao novo rei!")

One minute I held the key
(Em um minuto eu segurei as chaves)
Next the walls were closed on me
(No seguinte, as paredes estavam fechadas para mim)
And I discovered that my castles stand
(E descobri que meus castelos se apoiavam)
Upon pillars of salt and pillars of sand
(Em pilares de sal e areia)

I hear Jerusalem bells are ringing
Ouço os sinos de Jerusalém tocando

Roman Cavalry choirs are singing
(Corais da cavalaria romana estão cantando)
Be my mirror, my sword and shield
(Seja meu espelho, minha espada e escudo)
My missionaries in a foreign field
(Meus missionários em uma terra estrangeira)


For some reason I can't explain
(por alguma razão que não explicar)
Once you go there was never
(Desde sua partida nunca mais houve)
Never an honest word
(...nunca mais houve uma palavra honesta)
That was when I ruled the world
(Isso foi quando eu dominei o mundo)


It was the wicked and wild wind
(Foi um vento maldoso e estranho que...)
Blew down the doors to let me in
(...derrubou as portas e me deixou entrar)
Shattered windows and the sound of drums
(Janelas quebras e o som de tambores)
People couldn't believe what I'd become
(As pessoas não podiam acreditar no que eu havia me tornado)

Revolutionaries wait
(Revolucionários esperam...)
For my head on a silver plate
(...por minha cabeça em uma bandeja de prata)
Just a puppet on a lonely string
(apenas um fantoche sozinho numa corda)
Oh who would ever want to be king?
(Quem, iria querer ser rei?)

I hear Jerusalem bells are ringing
(Ouço os sinos de Jerusalém tocando)
Roman Cavalry choirs are singing
(Os coros da cavalaria romana cantando)
Be my mirror, my sword and shield
(Seja meu espelho, minha espada, meu escudo)
My missionaries in a foreign field
(meus missionários em uma terra estrangeira)

For some reason I can't explain
(Por alguma razão, que eu não posso explicar)
I know Saint Peter won't call my name
(eu sei que São Pedro não irá me chamar *para entrar aos céus)

Never an honest word
(Nunca mais uma palavra honesta)
But that was when I ruled the world
(mas, foi quando eu dominei o mundo)

Oh, oh, oh, oh, oh

Hear Jerusalem bells are ringing
(escuto os sinos de Jerusalém tocando)
Roman Cavalry choirs are singing
(os coros da cavalaria romana estão cantando)
Be my mirror, my sword and shield
(seja meu espelho, minha espada, meu escudo)
My missionaries in a foreign field
(meus missionários em uma terra estrangeira)


For some reason I can't explain
(por alguma razão, que não posso explicar)
I know Saint Peter won't call my name
(eu sei que São Pedro não irá me chamar)
Never an honest word
(nunca mais uma palavra honesta)
But that was when I ruled the world
(mas, tudo isso foi quando eu dominei o mundo)

domingo, 7 de março de 2010

Opostos e sem pudores


O ponto mais interessante do cenário eletrônico mundial talvez seja o de estar resgatando ritmos tradicionais, até folclóricos: o samba (Fernanda Porto),a bossa com drum'n'bass (Bebel Gilberto), a música celta (The Coors), o tango. Na versão eletrônica, esses ritmos têm ficado mais acessíveis às novas gerações, deixando de ser algo desconexo com a cena moderna e ainda estimulam novas produções efetivamente.
Quem iria imaginar, por exemplo, "Por Una Cabeza", um clássico de 1935, mais moderna do que nunca, acessível aos DJs em pistas de dança do mundo inteiro em pleno anos 2000?
Dois coletivos eletrônicos se destacam com o eletrotango, com produções altamente criativas e métodos opostos de trabalho: Natallia e The Eletronic Tango Band e Gotan Project (foto acima).
Enquanto o primeiro, mais enraizado, se apega em transportar clássicos para a modernidade, fazendo uma releitura com elementos eletrônicos, o segundo, mais ousado, produz novas e modernas músicas, usando elementos do tango, seguindo os passos do Bajofondo (outro coletivo de sucesso estrondoso, formado por uruguaios e argentinos). O que têm em comum? O fato de misturarem, sem pudor, instrumentos tradicionais do tango, como o bandoneón, com computadores e samplers.
Natallia surgiu em 1998 com o argentino Franco Natallia, que vive na Europa, e um grupo de amigos especializados em sintetizadores. Os caras estouraram em Ibiza (Espanha) e no norte da Itália. Dentre as leituras mais bacanas, estão "El LLorón", "El Choclo", "La Cumparsita", sem contar "Por Una Cabeza" de dois ícones do tango: Carlos Gardel e Alfredo Le Pera.
O Gotan Project surgiu um ano depois do Natallia, em 1999. Estamos falando de um projeto criado em plena cena parisiense, pelo francês Philippe Cohen Solal, o suíço Christoph Müller e, claro, o argentino Eduardo Makaroff. Apesar da multinacionalidade, o Gotan mantém o idioma originário do tango, o espanhol, em todas as suas produções. Vale a pena conferir "Lunático", "Diferente", "Arrabal" e, especialmente, a estonteante "Mi Confésion", todas no CD "Lunático" (2006).
Natallia é o velho tango reformado. Gotan uma nova construção, reaproveitando portas, janelas e dobradiças do tango.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Madonna 'clean'


Nessa fase onde nunca se viu tantos produtos enlatados e descartáveis no mercado fonográfico, é preciso admirar minuciosamente aqueles que conseguem manter uma carreira longa, de durabilidade generosa.Em todos os casos que se enquadram nesta situação, assistimos períodos de alta produtividade mesclados com outros mais acanhados. Muitos acertos, diversos outros tantos tropeços e muitas, muitas fases diferentes. Madonna é, sem dúvida, o maior ícone dessa longa estrada da música, onde criar, recriar, mudar é preciso.
Olhando bem para trás, a Madonna dos anos 80 foi um personagem e tanto. A menina bem brega, com pinta artificial no rosto e cheia de energia. É a Madonna das melodias toscas, das letras abusadas com pinceladas de inocência. É "Holiday","Like a Virgin", "La Isla Bonita", "Cherish", "Material Girl". Talvez somente "Like a Prayer" tenha vindo um pouco mais elaborada, com um coro de igreja fantástico.
Eis, que chegam os anos 90. Madonna ganha uma cara nova, dessa vez quer encarnar um personagem exacerbadamente sensual. "Erótica" é o quinto álbum. Madonna fala de fantasias sexuais, de sado-masoquismo, dá a entender que é homossexual. Faz, filme, faz vídeo, músicas. Tudo em torno do sexo. Madonna quer chocar. Quando não quer, faz canções de amor enfadonhas como "Rain".
Foi somente em 1998 _16 anos depois de ter iniciado efetivamente sua carreira_ que Madonna pôde rasgar suas fantasias para mostrar-se realmente como uma cantora poderosa apostando em nunances musicais verdadeiramente arrojadas. Madonna renasce em sua própria carreira de um jeito clean e cheio de sabedoria.
"Ray of Light", lançado neste ano, pode ser considerado o seu divisor de águas ou, literalmente, o raio de luz que iluminou a carreira de Madonna. Dizem que foi pela yoga ou pelo pilates, o fato é que "Ray of Light" e "Frozen" trazem uma Madonna com uma voz altamente densevolvida e a introduz definitivamente no universo da música eletrônica.
De lá pra cá, Madonna é fantástica. Perfeita. Implacável. Em 2005, foi a vez de "Confessions on a Dance Floor", o CD mais incrível de Madonna. Além da clássica "Hung Up" (com sample do Abba),temos a ultradançante "Sorry". Mas, ainda recomendo "Isaac" e "I Love New York", cheias de roupagens dançantes, misturando trechos a discoteca dos anos 70, de sons eletrônicos ou sonoridades orientais. Impossível cansar de "Confessions on a Dance Floor".

A volta do velho e traiçoeiro câncer



"Uma Prova de Amor", de 2009, é daqueles filmes para quem assiste, simplesmente, desabar. Bem como, "Lado a Lado" (de Julia Roberts e Susan Sarandon), é um roteiro dolorido, que aborda de forma emotiva, porém sempre muito honesta as dificuldades de lidar com o câncer. No início, temos a impressão de que o filme tratará de mais um dilema ético da ciência e do direito em tempos modernos. A pequena Anna Fitzgerald (Abigail Breslin de " A Pequena Miss Sunshine")abre o filme falando de seu drama pessoal. Anna foi concebida única e exclusivamente para salvar a vida de sua irmã Kate (Sofia Vassilieva), que sofre de leucemia. Sente-se usada, sente-se desvalorizada. Mas, com o decorrer do filme, não tem jeito. Os sentimentos, os dramas pessoais de Anna se tornam infinitamente pequenos diante das experiências de sua ainda jovem irmã Kate.
Mérito da atriz Sofia Vassilieva, que interpreta maravilhosamente bem a adolescente doente e mais ainda de Cameron Diaz, que encarna seu primeiro personagem de peso no cinema _o da mãe batalhadora Sara, que se torna obcecada pela sobrevivência da filha mais velha. Indo além, o filme também esbarra na temática de "Mar Adentro", em que viver se torna tão complicado, que escolher morrer se torna uma opçao plausível e racional. Esbarra também, com a mãe, no clássico desejo humano de tentar controlar as coisas e de sempre fracassar no final. Como pano de fundo destaco os sentimentos contraditórios, mas sempre muito leais e verdadeiros que ligam todos os personagens à Kate.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Deus nas artes


Se existe um tema polêmico para ser abordado do ponto de vista artístico, este assunto é Deus. Abordar Deus em livros, músicas, peças de teatro, filmes é sempre assumir o risco de esbarrar em dois problemas. Falar de Deus pode espantar o público mais cético, caso do filme “O Grande Desafio” em que a fé proporciona uma série surreal de milagres. Outro problema é criar uma imagem Divina que desagrade, caso da comédia “Alguém Lá em Cima Gosta de Mim”, que transforma Deus num simpático senhorzinho afim de dar lições em um "filho" meio reclamão.
O livro “A Cabana”, de William Young, corre este risco. Fala de Deus abertamente do início ao fim _para receio dos leitores avessos ao fanatismo_ mas, ao mesmo tempo, aposta em uma visão mais arrojada _o que pode chocar leitores mais tradicionalistas.
O livro trata da história de Mack, um pai de família norte-americano amargurado por dramas familiares que tem um encontro inesperado com Deus. Neste encontro tenta tirar o máximo de dúvidas possível e se surpreende ao ver desmistificados preceitos religiosos, que têm moldado e, em muitos casos, azedado a relação do Homem com Deus em que acredita.
A narrativa tem seu ponto forte no início da trama, cercada por suspense e dramas reais. Mas, no seu desenrolar, o autor esmiúça o que seria Deus e qual sua real filosofia de vida. Deus aparece numa versão mais light, mais hippie e um tanto quanto high tech. É um jeito de reinventar a imagem e o conceito do complexo ser, do qual não se tem provas da existência, nem da não existência.
“A Cabana” _que tem sido sondado para se tornar filme_ esclarece em parte como seria Deus, mas alimenta o mistério em torno dele. A obra é mais uma hipótese para elucidar a história mal contada da Humanidade, da qual fazemos parte.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Som Saboroso


Trilha sonora em filme é um adicional delicado, porém altamente valioso. Quanto a trilha é bem escolhida, bem pensada, não há quem resista e não se permita mergulhar no clima do filme. Este é o caso do brasileiro "Estômago", muito bem temperado com uma trilha deliciosa.
"Estômago" mostra a batidíssima história de ingenuidade e miséria de um nordestino que chega ao sul do país com uma mão na frente e outra atrás em busca de oportunidades, no caso, estamos falando de Raimundo Nonato (João Miguel). O diferencial do personagem está no fato dele saber cozinhar e muito bem. O dom se tornaria sua tábua de salvação em todos os sentidos de sua vida, inclusive quando é preso e precisa se submeter à hierarquia absolutamente cruel de um presídio. Nonato conquista uma mulher, conquista dois patrões, conquista conhecimento, e os primeiros passos de uma vida digna, com a qual sonha. Tudo pelo fato de ter boas mãos para lidar com a cozinha.
A produção tenta envolver quem assiste com belas imagens do habilidoso Nonato cortando alho, cebola, ervas. Mas, é a trilha sonora que dá o tom de leveza da gastronomia em meio à uma realidade deveras pesada. As músicas, basicamente instrumentais, conduzem o roteiro entre os momentos cotidianos (com um assobio) e os momentos poéticos de Nonato às voltas com a culinária (com um canto delicadamente feminino).
Tudo composto pelo italiano Geovanni Venosta, consagrado por trilhas em produções premiadas de seu país: “Pão e Tulipas” (2000), “Queimando ao vento” (2002) e “Ágata e a tempestade” (2004). A trilha de "Estômago" é tão enigimática, que por vezes parece personificar os próprios pensamentos do protagonista. É o tipo de trilha que não passa despercebida. Simples, ingênua, poética tanto quanto Nonato.

A dor e a música



O amor não correspondido sempre foi uma questão primordial na vida das cantoras brilhantes, que tiveram sucesso estrondoso ao longo do século 20. Mas, quando assistimos "Piaf, um Hino ao Amor" _biografia de Edith Piaf_ somos surpreendidos ao perceber que Edith ( interpretada por Marion Cotillard, vencedora do Oscar de melhor atriz em 2008) fugiu à regra. O amor não correspondido, possivelmente, não foi o motivo maior de sua sensibilidade artística. Além de ganhar outros contornos, a dor não foi parceira de Edith já adulta, mas, sim, por toda sua vida, incluíndo a infância.
Edith foi abandonada pela mãe, foi deixada pelo pai, foi desprezada pela avó, foi arrancada dos braços da única mulher que realmente se importava com ela _a prostituta Titine. Aliás, viveu anos em um prostíbulo, teve cegueira temporária, depois viveu anos nas rua e chegou a perder uma filha de meningite, quando ainda era muito jovem e absolutamente desconhecida. E tudo isso em uma época de miséria e guerra, no período após a 1ª Grande Guerra Mundial. Ufa!
Ah, sim, Piaf teve um grande amor. O lutador de boxe Marcel Cerdan (Jean-Pierre Martins), que era casado. O fato é que, ao que tudo indica, Piaf encarou com naturalidade o fato de ser a outra e se conformou em ficar no segundo plano, sem muita crise. Além disso, Marcel também parece, segundo o filme, não ter sido um amante canastrão. Era amável e se preocupava com Edith. A única e fatal dor de amor de Edith viria com a morte do amante em um acidente de avião, não por não ter seu amor correspondido.
Mesmo sem aquela velha dor de amor _que tradicionalmente inspirou divas por todo o mundo_ Piaf experimentou do jeito mais amargo e racional outros tipos de dores, teve uma vida mergulhada no alcoolismo, mais tarde também em aplicações de morfina, mas sua alma tão castigada lhe permitiu que fizesse interpretações únicas e geniais.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Divã




Acompanho o trabalho de várias admiráveis atrizes _como Julianne Moore,Susan Sarandon, Whoopi Goldberg, Meryl Streep, Juliette Binoche, Audrey Tautou_ mas, tenho que reconhecer que Julia Roberts é a mais pop de todas, é a única que me faz alugar filmes simplesmente por seu nome constar no elenco.
Ela é muito convincente nos papéis que faz, ainda que em alguns casos sejam personagens muito inferiores a sua capacidade de interpretação. Julia pode ser um demônio ou uma santa, uma desequilibrada ou a pessoa mais centrada do mundo. Já vi muitos filmes fracos, mas nunca chego a me arrepender. Julia sempre salva a parte que lhe cabe. E o fato de ela estar em um filme é motivo para despertar minha curiosidade para logo assistí-lo.
Acabo de assistir "Duplicidade" (2009,direção de Tony Gilroy). A história é bem legal, surpreendente mesmo, mas acho que o roteiro ficou confuso. É preciso assistir umas duas ou três vezes para pegar todos os detalhes. O filme vai e volta no tempo, mas não deixa isso muito claro. Mais uma vez, Julia contracena com o bonitão Clive Owen, seu marido em "Closer". Ambos se dividem na trama entre o trabalho como espiões concorrentes e amantes.
Olhando para trás, acho que as obras mais marcantes da atriz são os dramas e romances. Li uma vez que tem até terapeuta que sugere às pacientes que assistão filmes com Julia. Coincidência ou não, acho que seus melhores filmes foram exatamente aqueles em que as personagens ficam emersas no universo feminino como "Uma Linda Mulher", "Dormindo com o Inimigo", "O Casamento do Meu Melhor Amigo" e, especialmente: "Erin Brockovich - Uma Mulher de Talento" (da foto acima) e "Lado a Lado". Os dois últimos já assisti um milhão de vezes. Logo deve estrear mais um nessa linha: "Comer, Rezar e Amar", adaptação do best-seller autobiográfico de Elizabeth Gilbert. Julia é puro divã.

Segue meu top 10 com Julia Roberts:

1º Lado a Lado (1998)
2º Erin Brockovich - Uma mulher de Talento (2000)* Oscar de melhor atriz

3º O Casamento do Meu Melhor Amigo (1997)
4º Dormindo com o Inimigo (1991)
5º Uma Linda Mulher (1990)
6º Tudo por Amor (1991)
7º À Mexicana (2001)
8º Um Lugar Chamado Notting Hill (1999)
9º Closer (2004)
10º Adoro Problemas (1994)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Bunda lêlê


Assisti o desfile das escolas de samba de São Paulo num dia e no outro li uma matéria na "Folha de S.Paulo". A reportagem dizia que as escolas de samba que homenagearam Brasília (Tom Maior) e Ribeirão Preto (Águia de Ouro) ignoraram em seus desfiles a questão da corrupção, que marca a trajetória recente destas duas cidades.
Esperei para ver o que a Beija-Flor de Nilópolis iria fazer dois dias depois no desfile do Rio de Janeiro. A Beija-Flor também homenageou Brasília. E nada, nem uma ala, nenhuma fantasia, nenhum verso sequer sobre a questão da corrupção.
Entendi que a regra é: a sua conta bancária é proporcional ao tamanho do seu direito de falar. Isso vale para tudo. Como essas benditas escolas poderiam tocar na questão da corrupção, se precisavam e muito do dinheiro público para financiar parte do espetáculo? Mendigando aqui e ali um dinheirinho, elas precisam sempre ceder aos caprichos de quem as banca. É fatal. E quando pensei que a Beija-Flor poderia ter uma situação mais confortável é porque é uma escola maior e mais independente financeiramente. Mas, não. A Beija-Flor pegou justamente do governador José Roberto Arruda (DEM-DF)R$ 3 milhões. É a ditadura do din din. Todas são como os jornais pequenos das cidadezinhas do interior. Vivem à espera da gorjeta e, por isso, precisam estar sempre com um sorriso no rosto, sem perguntas ou críticas. Até o presidente da campeã Rosas de Ouro, admitiu ontem que seu samba-enredo original de chocolate falaria que cacau é show, tudo por causa do patrocínio da rede Cacau Show.
Merchandising ainda passa, fazer o que, né? Mas, omitir fatos importantes, fica feio na avenida. As escolas ficaram numa saia justíssima e reafirmaram, intencionalmente ou não, uma premissa com a qual não concordo: a de que o Carnaval é o ópio do povo. Que saudade de "Ratos e Urubus Deixem a Minha Fantasia", da mesma Beija-Flor, tão mais crítica, questionadora, irônica, nas mãos de Joãozinho Trinta.

O blues do Pet Shop Boys

Chegaram às lojas do Reino Unido esta semana CD/DVD do Pet Shop Boys gravados durante a Pandemonium Tour, em apresentação especial na Arena O2, em Londres, em dezembro. CD e DVD são esperados no Brasil para 28 de março. Quem foi ao show, certamente, está roendo as unhas à espera do novo material. Foi a turnê mais bem produzido do duo dentre as três que passaram pelo Brasil: Fundamental (2007) e Discovery (1994). Os cenários, os bailarinos, o figurino de Pandemonium foram surpreendentes. No set list, clássicos como "West End Girls" e "It's a Sin", mas também boa parte do CD "Yes", lançado no ano passado, como "Love ETC", "Pandemonium" e "Did You See me Coming?".
Destaco entre a nova safra que estará no CD/DVD, "Pandemonium", a música que deu origem ao nome da turnê e que pode até passar batida para quem está descobrindo "Yes" _que traz uma longa lista de músicas alegres e dançantes, diga-se de passagem. Mas, no show,"Pandemonium" ganha um espaço inesperado ao ser aberta em ritmo de blues e ganhar um mashup com a clássica "Can You Forgive Her?", mexe profundamente com o público. O vocalista Neil Tennant interpreta com uma vivacidade está música no palco, que faz com que ela cresça e se transforme. O impacto ao vivo é tão forte que fãs relataram ter como principal lembrança do ousado e versátil show justamente "Pandemonium" ritmada pelas palmas vibrantes do velho Mr. Tennant.




***

Che



O líder revolucionário Ernesto Che Guevara foi um homem tão complexo e ao mesmo tempo tão coerente, que merece sua biografia dividida em capítulos certamente para ser melhor compreendido. "Che",do diretor Steven Soderbergh, parece uma continuação de "Diários de Motocicleta", do diretor brasileiro Walter Salles, de 2004. Enquanto este último mostrou um Che jovem, se sensibilizando com um povo sofrido no interior da América Latina, "Che" traz à tona um homem maduro, ciente do que quer, forte e decidido a lutar por seus ideais ainda que para isso precisasse arriscar sua vida pegando em armas.
É uma complementação tão instantânea que recomendo, se possível, ver os dois filmes juntos porque ambos retratam uma transformação deste homem alinhavada pelo desejo de justiça. E realmente não importa a ordem. "Diários de Motocicleta" é como se fosse uma justificativa ímpar para entender o que levou Guevara a se tornar "Che". Fisicamente, os atores que o interpretaram também mostram essa tranformação. Che vai da fase jovem, com um sorriso ingênuo nos lábios de quem descobre o mundo com Gael García Bernal até à fase de expressões fortes, marcadas pela barba, traços marcantes e um olhar decidido já com Benicio Del Toro, pelas florestas de Sierra Maestra, sempre com armas ou um charuto estiloso nas mãos. Del Toro traz à tona um Che comandante, fazendo um papel político importantíssimo para a revolução junto às comunidades, deixando de lado sua vida pessoal, sofrendo com uma tosse crônica em meio à floresta.
É quase um documentário, fugindo, inclusive, do velho clichê hollywoodiano de fazer todos os seres humanos e até ETs falarem Inglês.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Mulheres que dançam



Nestes dias, em que respiramos Beyoncé (já que ela anda por aqui, no Brasil), aproveito para observar como o jazz _enquanto ritmo dançante, que nada tem a ver com o jazz gênero musical_ tem sido um espetáculo à parte nas apresentações e vídeo-clipes de cantoras do pop e cito como bons exemplos: Madonna, Kylie Minougue e, claro, a própria Beyoncé.
O jazz é uma espécie de balé moderno, com movimentos mais livres, beirando à dança contemporânea (onde há, por vezes, a ausência de coreografias). De acordo com os pesquisadores, é um estilo de dança conhecido desde os anos 50 e que teria surgido entre os descendentes de africanos que moram nos EUA. Aqui no Brasil, o gênero se popularizou nos anos 80, principalmente entre crianças e adolescentes, numa época marcada justamente pela ascenção da dance music.
Andando lado a lado com a música, as coreografias podem render obras belíssimas ou não. Britney Spears, Fergie (do Black Eyed Peas) e Shakira, por exemplo, não têm sido muito felizes ao meu ver, pecam pela falta de criatividade, de ousadia e pela excessiva valorização de movimentos e gestos sensuais, que invevitavelmente tiram o foco da dança em si. Isso pelo menos nos clipes e apresentações que vi.
No caso de "Hung Up" (Madonna) e "Single Ladies" (Beyoncé), por exemplo, colãs, polainas e, claro, as coreografias transformam essas supermulheres em simples "meninas" praticando dedicadamente suas aulas de jazz. Mesmo para quem nunca fez uma aula sequer de jazz na vida, as coreografias de Madonna, Kylie e Beyoncé impressionam e prendem a atenção.É um show a parte.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

'Pintando' o set




Princepezinho (Steve Warner -"O Pequeno Príncipe"), Olive (Abigail Breslin -"A Pequena Miss Sunshine"), Totó (Phillipe Noiret, da foto acima - "Cinema Paradiso"), Josué (Vinícius de Oliveira - "Central do Brasil") e Giosué (Giorgio Cantarini - "A Vida é Bela"). Já repararam como as crianças dos filmes têm sempre um papel único e conseguem, como ninguém, fazer com que adultos pensem, fiquem constrangidos e até sem respostas diante da complexidade das tramas? De tempos em tempos, os autores lançam mão deste recurso, que torna histórias ainda mais complexas, humanas e ricas. Estão em busca daquele personagem que irá desconsertar tudo, fazer perguntas ou simplesmente lançar olhares de interrogação sobre atitudes tão óbvias e impensadas.
As crianças, caem como luvas neste propósito. A espontaneidade delas permite uma inversão de valores. Em todos os filmes citados, em certo momento, os adultos _que são as referências_ se sentem constrangidos por suas próprias atitudes ou pelas dos outros adultos. Acanhados, não sabem como responder, explicar. Os papéis ficam, visivelmente, invertidos. Adultos envergonhados, como se fossem crianças arteiras. Crianças muito sérias e corajosas, como se fossem adultos atrás da verdade, doa o que doer.
O princepezinho dá o tom mais filosófico, sempre lançando pensamentos e confiança naquilo que pensa, diante de seu amigo aviador, por sua vez cheio de dúvidas. Olive sempre com seu olhar curioso sobre a família cheia de confrontos pessoais, ainda que velados para ela. Totó querendo saber a verdade sobre o pai, por vezes tão mais forte e corajoso do que sua mãe para lidar com a morte. Josué de "Central do Brasil" sempre tão seguro de si e cheio de esperança, dando aulas à Dora, a "escrevedora" de cartas. E o Josué de "A Vida é Bela", tão envolvido naquela falsa realidade criada em um campo de concentração e com uma confiança cega no próprio pai, certamente, invejável para qualquer adulto naquele contexto.
A vida dessas crianças ainda podem se tornar importantíssimos marcos para mostrar a passagem do tempo. É o caso de Totó e ainda dos pequenos Amir e Hassan (Zekeria Ebrahimi e Ahmad Khan Mahmidzada) de "O Caçador de Pipas". O crescimento deles é a própria linha do tempo.
Enfim, para quem assiste, pode até parecer uma receita pronta, mas o fato é que as crianças têm enriquecido as roteiros, quando se tornam personagens centrais, tanto pelos belas tomadas que proporcionam quanto pela "bagunça" que provocam naquilo que está arrumadinho demais.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Malandragem



A cantora Fabiana Cozza _que faz parte de uma nova e inspiradora geração de sambistas_ fez algo especial pelo gênero no seu DVD "Quando o Céu Clarear", de 2008. Ela resgatou um dos sambas mais simples e clássicos dos anos 80: "Malandro Sou Eu", de composição de Arlindo Cruz, Sombrinha e Franco. Descobri Fabiana recentemente em um programa da TV Cultura, gostei muito e fiquei emocionada ao ouvir esse partido alto, que na minha lembrança era cantado por Beth Carvalho. A letra é uma ode à sobrevivência às mazelas, sejam sociais ou não, traz à tona a velha discussão dos intelectuais sobre a malandragem do brasileiro e faz mais: esclarece, ilumina, desmistifica o assunto de um jeito genial. A letra parece negar que maior parte do povo brasileiro não é composta de malandros natos, mas se esforça e gostaria de ser porque, muitas vezes, é um jeito menos doloroso de se sobreviver. Apesar do título,é uma música, que não parece se referir ao malandro legítimo, mas, sim do brasileiro que está no ponto de ônibus com a pasta cheia de currículos, na janela do barraco lá na periferia, na fila do banco esperando, com determinação, para pagar suas contas.


"Malandro Sou Eu"


Segura teu santo, seu moço
Teu santo é de barro
Que sarro dei volta no mundo voltei pra ficar
Eu vim lá do fundo do poço
Não posso dar mole pra não afundar
Quem marca bobeira engole poeira
E rasteira até pode levar
Malandro que sou, eu não vou vacilar
Sou o que sou ninguém vai me mudar
E quem tentou teve que rebolar
Sem conseguir
Escorregando daqui e dali
Malandreando eu vim e venci
E no sufoco da vida foi onde aprendi
Por isso que eu vou
Vou... eu vou por aí
Sempre por aí... esse mundo é meu
E... onde quer que eu vá
Em qualquer lugar... malandro sou eu

"Avatar" em Copenhague 2011


O bombástico "Avatar", que promete ser fenômeno de bilheteria em 2010, já tráz muitas críticas por aí ao expor uma contradição saliente entre produção e roteiro. Enquanto, as cenas são consideradas impecáveis com uma injeção da tecnologia mais reconhecidamente moderna nos seus efeitos especiais, a pobreza de conteúdo e a previsibilidade de cena após cena são um ponto fraco indiscutível.
Mas, pensando bem aqui com meus botões, acho que "Avatar" tem raizes, talvez até sem querer, na contradição da própria realidade em que estamos submersos. A tecnologia é um show, é, realmente, incrível e fascinante. Mas, no campo dos conceitos estamos ou não estamos altamente atrasados quando falamos sobre meio ambiente e direitos humanos? Tive a sensação de "já ter visto esse filme antes", quando eles abordam o modo de vida daquela tribo tão arcaica, religiosa e profundamente ligada à natureza. A sensação é de ter voltado ao livro de História amarelo da 5ª série, que tratava da colonização portuguesa, aquela mesma que destruiu impiedosamente as tribos indígenas. Até as flexas eram iguais!
Mas, fiquei pensando que talvez para a maioria das pessoas, tudo isso poderia ser uma grande novidade, que a maioria delas realmente nunca teria parado para pensar sobre o valor das civilizações, a maioria não deve ter estudado o mesmo livro amarelo tosco que eu, é a única explicação para a falta de compreensão e preocupação do mundo com florestas e povos primitivos.
Nesse aspecto, "Avatar" parece ser um filme para educar pessoas e envegonhar governantes gananciosos. E isso me surpreendeu. A tecnologia de ponta eu já esperava. Enfim, o roteiro "água com açúcar" é um bom começo para quem não enxerga ou não quer enxergar além do dinheiro, bem que poderia ser exibido em Copenhague 2011.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Pó mágico de Tinker


Dos desenhos mais recentes que tenho visto no cinema, me chama muito a atenção Tinker Bell, a fadinha que é mais conhecida no Brasil como Sininho, amiga leal do Peter Pan. Para quem não sabe, Tinker Bell foi desmembrada da história de Peter, nas quais era mera coadjuvante, para ter suas próprias histórias produzidas em série pela Disney. É uma personagem incrivelmente humana, apesar de ser uma fada, que intriga as crianças e traz um ar divertido aos adultos mais engajados. Tinker é, por exemplo, orgulhosa e teimosa. Como na vida real, passa por situações em que suas características são uma vantagem e por outras em que paga um preço por elas. A fadinha é mais real do que todas as dezenas de personagens das histórias da Barbie, sempre tão maniqueístas_ onde as meninas de tão perfeitas, que passam longe de serem humanas. Tinker é tão humana e, nem por isso, menos doce para as crianças.