terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Bunda lêlê


Assisti o desfile das escolas de samba de São Paulo num dia e no outro li uma matéria na "Folha de S.Paulo". A reportagem dizia que as escolas de samba que homenagearam Brasília (Tom Maior) e Ribeirão Preto (Águia de Ouro) ignoraram em seus desfiles a questão da corrupção, que marca a trajetória recente destas duas cidades.
Esperei para ver o que a Beija-Flor de Nilópolis iria fazer dois dias depois no desfile do Rio de Janeiro. A Beija-Flor também homenageou Brasília. E nada, nem uma ala, nenhuma fantasia, nenhum verso sequer sobre a questão da corrupção.
Entendi que a regra é: a sua conta bancária é proporcional ao tamanho do seu direito de falar. Isso vale para tudo. Como essas benditas escolas poderiam tocar na questão da corrupção, se precisavam e muito do dinheiro público para financiar parte do espetáculo? Mendigando aqui e ali um dinheirinho, elas precisam sempre ceder aos caprichos de quem as banca. É fatal. E quando pensei que a Beija-Flor poderia ter uma situação mais confortável é porque é uma escola maior e mais independente financeiramente. Mas, não. A Beija-Flor pegou justamente do governador José Roberto Arruda (DEM-DF)R$ 3 milhões. É a ditadura do din din. Todas são como os jornais pequenos das cidadezinhas do interior. Vivem à espera da gorjeta e, por isso, precisam estar sempre com um sorriso no rosto, sem perguntas ou críticas. Até o presidente da campeã Rosas de Ouro, admitiu ontem que seu samba-enredo original de chocolate falaria que cacau é show, tudo por causa do patrocínio da rede Cacau Show.
Merchandising ainda passa, fazer o que, né? Mas, omitir fatos importantes, fica feio na avenida. As escolas ficaram numa saia justíssima e reafirmaram, intencionalmente ou não, uma premissa com a qual não concordo: a de que o Carnaval é o ópio do povo. Que saudade de "Ratos e Urubus Deixem a Minha Fantasia", da mesma Beija-Flor, tão mais crítica, questionadora, irônica, nas mãos de Joãozinho Trinta.

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