domingo, 28 de março de 2010

Um bolero arrebatador


Acabo de ver a Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) se apresentar ao ar livre no parque Luís Carlos Raya, em Ribeirão Preto, sob a regência do caloroso e didático maestro Marcelo Lehninger. No programa a rapisódia "Espanha" do francês Emmanuel Chabrier, "Romeu e Julieta" do russo Piotr Ilitch Tchaikovsky (um dos meus compositores prediletos) e o "Bolero", do também francês Maurice Ravel(na foto acima). Por sorte, cheguei adiantada e tive o prazer de assistir esta última por duas vezes, na passagem de som e na apresentação. Mal acreditei. Durante minha gravidez, em 2001 eu ouvi Ravel todas as noites. E como é bom ouví-lo. No caso do "Bolero" eu diria que é uma canção brincalhona pelas cifras, hipnotizante pelo ritmo. E, nem sei por que, é uma obra relativamente pop no pobre repertório clássico do brasileiro. Independente de sua popularidade, o "Bolero" cresce e arrebata os ouvidos mais sensíveis. Os mais atenciosos, em casa mesmo, já poderiam reparar no jogo que o genial Ravel nos preparou, revezando os instrumentos em apenas dois compassos repetidos incansavelmente 169 vezes. Mas, ao vivo, ali, cara à cara com os músicos da Osesp, fica ainda mais visível e impressionante o jogo do compositor. Instrumento por instrumento ganha o seu momento célebre na música, desperta a curiosidade, a consciência de cada som que se ouve. Trompete, violino, violoncelo, trombone, harpa, tambor, pratos, piano. Todos se destacam individualmente e, em seguida se misturam num único som inseparável. Não há quem resista em acompanhar com as mãos as batidas em progressão desta obra,que segundo pesquisadores foi composta em 1928 a pedido da bailarina Ida Rubinstein. Algumas crianças, mesmo as muito pequenas, imitavam os sons dos instrumentos, outras observavam admiradas aquela diversidade mostrada quadro a quadro. Longo, com seus 16 minutos e 10 segundos, o "Bolero" é um exercício de fôlego e observação premiado com infinitas e inspiradoras descobertas.

A missão gringa


Assisti "A Missão" (direção de Roland Joffé) pela primeira vez em 1987, quando tinha apenas 11 anos, para um trabalho de escola. Revi recentemente, mais de 20 anos depois e, politicamente, 20 vezes mais madura. É um dos poucos filmes que aborda de forma crua a matança indígena na América Latina durante a colonização. Sim, porque convenhamos que o assunto foi ignorado ou, no máximo, explorado de forma amenizada. No caso do cinema brasileiro, a colonização, bem como a história inteira do país, ganhou uma versão light, com cores alegres quase sempre. A versão pesada vem das mãos dos gringos, que historicamente exploraram a América e que somente mais recentemente têm mostrado algum interesse em corrigir as distorções causadas.
O filme mostra o papel importante dos padres jesuítas para conquistar a confiança dos índios durante a colonização. Na verdade, é uma aula e tanto de história, com tom crítico sem igual. A Igreja Católica, como em tantos outros momentos marcantes da História Mundial, desempenha um papel central, cheio de contradições internas e muita polêmica. Inicialmente, os padres jesuítas enfrentam todas as dificuldades naturais de um ambiente hostil e selvagem para converter os nativos à fé católica. Mas no fim, o que se vê é uma divisão dentro da igreja. Enquanto a cúpula cede aos mandos das coroas portuguesa e espanhola e trai a confiança dos índios, lavando suas mãos, a base católica tenta proteger as tribos a todo custo, criando pequenos núcleos de resistência dentro das florestas. É importante observar que a mesma igreja que vira as costas para os índios, como virou para os judeus durante o Holocausto, é aquela que os abriga e os defende como nenhuma outra instituição.
"A Missão" expõe o racha, que ainda hoje, existe de forma velada na Igreja Católica entre os engajados e os omissos à realidade social.
Fora isso, o filme também ganhou Palma de Ouro em Cannes, venceu o Oscar de melhor fotografia e conta com a atuação do gigante Robert de Niro, que interpreta um violento mercador de escravos. A participação de índios verdadeiros, nativos de tribos da Colômbia, foi uma audácia feliz do diretor Roland Joffé, que, aparentemente, tratou de forma cuidadosa os trâmites necessários como a contratação e a preparação diferenciada. O resultado ficou muito natural e impactante. Uma história de reflexão, culpa e vergonha por todos os danos causados às populações indígenas.

sábado, 20 de março de 2010

Teatro na rua


Costumo pensar que pessoas podem gostar ou desgostar de diferentes formas de arte por pura falta de conhecimento. E isso me deixa aflita. Bem como defendo a democratização da comida, da educação e do lazer, também sou assídua defensora da democratização das artes. Acredito que todos têm o direito de, pelo menos, conhecer propostas diferentes e, aí sim, escolherem suas preferências.
Essa reflexão me ressurge após ter visto hoje pela manhã cerca de 200 pessoas paradas no meio da rua para assistirem uma brilhante comédia apresentada pela Cia de Teatro Bocaccione. O grupo, formado por jovens atores, improvisou um palco em pleno calçadão _demarcado por uma corda_ e incluiu música (executada pelos próprios atores) em uma performance engraçada e altamente interativa. Muita gente passou reto _com pressa para a gastança nas lojas possivelmente_, mas muitos outros pararam e, visivelmente, se permitiram rir e se divertir. O entusiasmo daquela plateia improvisada diz tudo. Diz que a leitura popular tem sido subestimada e que a oferta tem sido bastante limitada. O fato é que a maioria das pessoas "almoça" o que tem, não pôde provar outros temperos, não tem embasamento para pedir que outros "pratos". Eis um grande desafio de quem produz, divulga ou financia arte neste país.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Diálogos Divertidos


Se você é do tipo que adora comédias sobre comportamento humano, especialmente o de casais, precisa assistir "Ligeiramente Grávidos" (2007, direção de Judd Apatow). O filme fala de uma gravidez inesperada envolvendo um casal impensável. Não é um filme marcante _já que podemos classificá-lo na já imensa lista de comédias românticas norte-americanas_ porém traz diálogos extremamente divertidos e realistas. De forma em geral, aborda muito da paranóia feminina e do lunatismo que acomete os homens tradicionalmente no dia a dia. Já nas peculiaridades, esbarra em temas modernos e bem realistas como o consumo de drogas, o preconceito contra indivíduos do Oriente Médio, a relação da mulher grávida com o mercado de trabalho, a falta de envolvimento dos obstetras com a gravidez de suas pacientes, o abismo de maturidade entre homens e mulheres no início da fase adulta e por aí vai. É um filme bacana para quem quer relaxar e dar boas risadas. O roteiro traz tiradas de humor bem colocadas expondo como pessoas tão próximas têm visões de mundo pateticamente diferentes. Para quem é fã da série "Grey's Anatomy", vale destacar, que Katherine Heigl protagoniza a película na pele de Alison Scott e seu par é interpretado por Seth Rogen, que no filme, é Ben Stone. Do ponto de vista da produção, ficou impecável a evolução do corpo de Alison durante a gravidez, sua postura e seus gestos de grávida. Tem até uma cena em que ela aparece usando a barriga como apoio para dobrar uma roupinha do bebê. Pequenos detalhes reais, muito bem pensados pela produção.

domingo, 14 de março de 2010

Filme brasileiro e policial, sim senhor


É incrível como "Verônica" (de 2009, com direção de Maurício Farias) tinha todos os ingredientes para ser uma releitura de "Central do Brasil" (de 1998, com direção de Walter Salles), mas acaba seguindo uma linha de produção diferente e surpreendente. "Verônica" também traz à tona um menino muito pequeno, ingênuo e sozinho (Leandro, interpretado por Matheus de Sá) em um contexto de miséria e violência, altamente perigoso e mais brasileiro do que nunca. Para protegê-lo, Verônica surge como a heroína que entra em sua vida por acaso, como um anjo da guarda meio contrariado, tal qual Dora em "Central do Brasil". São mulheres sofridas com a condição econômica e com a solidão, mas que não conseguem ignorar essas crianças e, por mais que resistam, acabam se envolvendo com suas histórias de vida e pior, precisam jogar tudo para o alto e abrir mão de suas próprias vidas na tentativa para poderem ajudar estes meninos. E, como se não bastasse tudo isso em comum, ainda há o fato de Andréa Beltrão ter tido uma atuação brilhante como Verônica, seguindo de forma digna os passos da veterana Fernanda Montenegro em "Central do Brasil".
Mas, tirando a introdução, "Verônica" logo expõe a que veio. Estamos falando de um filme policial, cheio de adrenalina, cheio de reviravoltas bem alinhavadas com o ex-marido de Verônica, Paulo (interpretado por Marco Ricca). Um filme de boa qualidade, ainda mais neste perfil de ação, em que as produções brasileiras não costumam se arriscar muito. "Verônica" tem uma toada muito mais violenta do que "Central do Brasil". É um filme que peca na qualidade do elenco em geral, mas acerta em boas tomadas _que disparam o coração_ e na atuação competente de Andréa Beltrão.

Não há lugar como a nossa casa



Faz muito tempo que "nossa casa" tem deixado de ser simplesmente um prédio,uma mera construção, para se tornar algo muito mais relevante nos roteiros de cinema. Nas produções infantis, as casas têm se tornado elementos importantes, quando não verdadeiros personagens dos roteiros. Já em 1939, a casa subiu aos céus junto com Doroty em "O Mágico de Oz" (do diretor Victor Fleming), carregada por um violento tornado. Nos filmes de animação, por exemplo, temos em 2006 a casa que ganha vida, hábitos e reações humanas, em "A Casa Monstro"( do diretor Gil Kenan). A casa "encarna" o espírito da mulher do velho Nebbercracker e passa a praticar crueldades contra as crianças da vizinhança. Mas, apaixonado por sua mulher, Nebbercracker tenta protegê-la a todo custo e vive o dilema de ter que exterminá-la para evitar incidentes com os vizinhos.
O premiado "UP, Altas Aventuras" (direção de Peter Docter, que ganhou o Oscar 2010 de Melhor Animação e Melhor Trilha Sonora Original), caminha nesta mesma linha. Dessa vez a casa não tem movimentos próprios, mas é encarada o tempo todo pelo personagem Carl Fredricksen como se fosse sua própria mulher, a falecida Ellie, por quem ele era apaixonado. Carl planeja uma viagem sonhada desde a infância e cria seu próprio método para levar a casa junto. Passa o tempo todo zelando pela casa, que divide cena após cena com os demais personagens: o menino Russel, a ave Kevin e o cão falante Dug . O retrato de Ellie na parede é um indício de que Carl cultiva justamente na casa todas as lembranças de seu casamento feliz com Ellie. Ele não mede esforços para salvar sua casa ou sua Ellie. Chega a ser colocado em uma situação onde precisa escolher entre defender a casa e a ameaçada ave Kevin, opta pela casa. No fim, entretanto, aceita a perda de sua mulher _personificada pela casa_ e a deixa descansar no local onde sonhava viver desde sua infância: o Paraíso das Cachoeiras, na América do Sul, que foi inspirado na região da divisa entre a Guiana, Brasil e Venezuela.
Apesar dos filmes citados acima serem infantis, a temática da casa que se torna personagem tem a ver com sentimentos que nos perseguem mesmo na vida adulta. O apego com a casa onde se vive não tem idade e também se tornou coisa de adulto no assustador "Os Outros" (2001,direção de Alejandro Amenábar) ou no clássico "E O Vento Levou" (de 1939, com direção de Victor Fleming, George Cukor e Sam Wood). Quem não se lembra de Tara, a fazenda de valor inestimável para Scarlett?

quinta-feira, 11 de março de 2010

Viva Cold Play



Esta semana postaram no Youtube este mashup (mescla de músicas) chamado "Viva la Home", que mistura "Home and Dry" acústico, do Pet Shop Boys, com "Viva la Vida", do Cold Play. O resultado ficou muito bom. As músicas realmente renderam uma mistura bacana. Fora que Chris Martin (vocalista do Cold Play) e Neil Tennant (Pet Shop Boys) estão pra mim na invejável lista dos vocalistas inesquecíveis e inimitáveis da História Moderna. Vozes poderosas e únicas. Mas, indo além, posso afirmar que "Viva La Vida" já é um clássico por si só. Uma melodia belíssima, efervescente, arrebatadora e enriquecida por tambores, sinos e instrumentos de corda. O Coldplay, considerada banda de rock alternativo, passou a ser classificada como "pop barroco", depois de "Viva La Vida" e não é à toa, Viva destoa da brilhante discografia da banda, quando deixa as guitarras serem ofuscadas pelo violino.
Outro detalhe que fascina é a letra desta música. Inteligente, misteriosa, dúbia, como um enigma ao fazer referências religiosas e históricas. "Viva la Vida" pode estar falando sobre a Revolução Francesa ou sobre Heródes, o Grande, rei de Israel. Estamos falando de algo grandioso na História. Música, letra e voz nos dizem isso o tempo todo. A banda já declarou que está falando de revolucionários em geral. Mas, vamos combinar que é possível fazer uma monografia sobre a letra de "Viva La Vida". O vídeoclipe, pra fechar a conversa, também é belíssimo e acompanha toda a erudição da música, inspirada na pintura "A Liberdade Guiando o Povo" ("La Liberté guidant le peuple"), de Eugène Delacroix (da foto). O quadro é uma homenagem à Revolução de 1830, quando no período pós-Revolução Francesa, o movimento republicano conseguiu a abdicação do então rei Carlos X, que tentava restaurar a monarquia na França.

Abaixo a letra de "Viva la Vida", que merece ser analisada minuciosamente:


Viva la Vida
Coldplay
(Composição: Chris Martin)

I used to rule the world
(Eu costumava dominar o mundo)
Seas would rise when I gave the word
(Os oceanos se abriam quando eu madava)
Now in the morning and I sleep alone
(Agora, pela manhã, durmo sozinho)
Sweep the streets I used to own
(Varro as ruas, que já foram minhas)

I used to roll the dice
(Eu costumava jogar os dados)
Feel the fear in my enemy's eyes
(Sentir o medo nos olhos dos meus inimigos)
Listen as the crowd would sing
(Ouvir enquanto a multidão cantava)
"Now the old king is dead! Long live the king!"
("Agora o rei mais velho está morto! Vida longa ao novo rei!")

One minute I held the key
(Em um minuto eu segurei as chaves)
Next the walls were closed on me
(No seguinte, as paredes estavam fechadas para mim)
And I discovered that my castles stand
(E descobri que meus castelos se apoiavam)
Upon pillars of salt and pillars of sand
(Em pilares de sal e areia)

I hear Jerusalem bells are ringing
Ouço os sinos de Jerusalém tocando

Roman Cavalry choirs are singing
(Corais da cavalaria romana estão cantando)
Be my mirror, my sword and shield
(Seja meu espelho, minha espada e escudo)
My missionaries in a foreign field
(Meus missionários em uma terra estrangeira)


For some reason I can't explain
(por alguma razão que não explicar)
Once you go there was never
(Desde sua partida nunca mais houve)
Never an honest word
(...nunca mais houve uma palavra honesta)
That was when I ruled the world
(Isso foi quando eu dominei o mundo)


It was the wicked and wild wind
(Foi um vento maldoso e estranho que...)
Blew down the doors to let me in
(...derrubou as portas e me deixou entrar)
Shattered windows and the sound of drums
(Janelas quebras e o som de tambores)
People couldn't believe what I'd become
(As pessoas não podiam acreditar no que eu havia me tornado)

Revolutionaries wait
(Revolucionários esperam...)
For my head on a silver plate
(...por minha cabeça em uma bandeja de prata)
Just a puppet on a lonely string
(apenas um fantoche sozinho numa corda)
Oh who would ever want to be king?
(Quem, iria querer ser rei?)

I hear Jerusalem bells are ringing
(Ouço os sinos de Jerusalém tocando)
Roman Cavalry choirs are singing
(Os coros da cavalaria romana cantando)
Be my mirror, my sword and shield
(Seja meu espelho, minha espada, meu escudo)
My missionaries in a foreign field
(meus missionários em uma terra estrangeira)

For some reason I can't explain
(Por alguma razão, que eu não posso explicar)
I know Saint Peter won't call my name
(eu sei que São Pedro não irá me chamar *para entrar aos céus)

Never an honest word
(Nunca mais uma palavra honesta)
But that was when I ruled the world
(mas, foi quando eu dominei o mundo)

Oh, oh, oh, oh, oh

Hear Jerusalem bells are ringing
(escuto os sinos de Jerusalém tocando)
Roman Cavalry choirs are singing
(os coros da cavalaria romana estão cantando)
Be my mirror, my sword and shield
(seja meu espelho, minha espada, meu escudo)
My missionaries in a foreign field
(meus missionários em uma terra estrangeira)


For some reason I can't explain
(por alguma razão, que não posso explicar)
I know Saint Peter won't call my name
(eu sei que São Pedro não irá me chamar)
Never an honest word
(nunca mais uma palavra honesta)
But that was when I ruled the world
(mas, tudo isso foi quando eu dominei o mundo)

domingo, 7 de março de 2010

Opostos e sem pudores


O ponto mais interessante do cenário eletrônico mundial talvez seja o de estar resgatando ritmos tradicionais, até folclóricos: o samba (Fernanda Porto),a bossa com drum'n'bass (Bebel Gilberto), a música celta (The Coors), o tango. Na versão eletrônica, esses ritmos têm ficado mais acessíveis às novas gerações, deixando de ser algo desconexo com a cena moderna e ainda estimulam novas produções efetivamente.
Quem iria imaginar, por exemplo, "Por Una Cabeza", um clássico de 1935, mais moderna do que nunca, acessível aos DJs em pistas de dança do mundo inteiro em pleno anos 2000?
Dois coletivos eletrônicos se destacam com o eletrotango, com produções altamente criativas e métodos opostos de trabalho: Natallia e The Eletronic Tango Band e Gotan Project (foto acima).
Enquanto o primeiro, mais enraizado, se apega em transportar clássicos para a modernidade, fazendo uma releitura com elementos eletrônicos, o segundo, mais ousado, produz novas e modernas músicas, usando elementos do tango, seguindo os passos do Bajofondo (outro coletivo de sucesso estrondoso, formado por uruguaios e argentinos). O que têm em comum? O fato de misturarem, sem pudor, instrumentos tradicionais do tango, como o bandoneón, com computadores e samplers.
Natallia surgiu em 1998 com o argentino Franco Natallia, que vive na Europa, e um grupo de amigos especializados em sintetizadores. Os caras estouraram em Ibiza (Espanha) e no norte da Itália. Dentre as leituras mais bacanas, estão "El LLorón", "El Choclo", "La Cumparsita", sem contar "Por Una Cabeza" de dois ícones do tango: Carlos Gardel e Alfredo Le Pera.
O Gotan Project surgiu um ano depois do Natallia, em 1999. Estamos falando de um projeto criado em plena cena parisiense, pelo francês Philippe Cohen Solal, o suíço Christoph Müller e, claro, o argentino Eduardo Makaroff. Apesar da multinacionalidade, o Gotan mantém o idioma originário do tango, o espanhol, em todas as suas produções. Vale a pena conferir "Lunático", "Diferente", "Arrabal" e, especialmente, a estonteante "Mi Confésion", todas no CD "Lunático" (2006).
Natallia é o velho tango reformado. Gotan uma nova construção, reaproveitando portas, janelas e dobradiças do tango.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Madonna 'clean'


Nessa fase onde nunca se viu tantos produtos enlatados e descartáveis no mercado fonográfico, é preciso admirar minuciosamente aqueles que conseguem manter uma carreira longa, de durabilidade generosa.Em todos os casos que se enquadram nesta situação, assistimos períodos de alta produtividade mesclados com outros mais acanhados. Muitos acertos, diversos outros tantos tropeços e muitas, muitas fases diferentes. Madonna é, sem dúvida, o maior ícone dessa longa estrada da música, onde criar, recriar, mudar é preciso.
Olhando bem para trás, a Madonna dos anos 80 foi um personagem e tanto. A menina bem brega, com pinta artificial no rosto e cheia de energia. É a Madonna das melodias toscas, das letras abusadas com pinceladas de inocência. É "Holiday","Like a Virgin", "La Isla Bonita", "Cherish", "Material Girl". Talvez somente "Like a Prayer" tenha vindo um pouco mais elaborada, com um coro de igreja fantástico.
Eis, que chegam os anos 90. Madonna ganha uma cara nova, dessa vez quer encarnar um personagem exacerbadamente sensual. "Erótica" é o quinto álbum. Madonna fala de fantasias sexuais, de sado-masoquismo, dá a entender que é homossexual. Faz, filme, faz vídeo, músicas. Tudo em torno do sexo. Madonna quer chocar. Quando não quer, faz canções de amor enfadonhas como "Rain".
Foi somente em 1998 _16 anos depois de ter iniciado efetivamente sua carreira_ que Madonna pôde rasgar suas fantasias para mostrar-se realmente como uma cantora poderosa apostando em nunances musicais verdadeiramente arrojadas. Madonna renasce em sua própria carreira de um jeito clean e cheio de sabedoria.
"Ray of Light", lançado neste ano, pode ser considerado o seu divisor de águas ou, literalmente, o raio de luz que iluminou a carreira de Madonna. Dizem que foi pela yoga ou pelo pilates, o fato é que "Ray of Light" e "Frozen" trazem uma Madonna com uma voz altamente densevolvida e a introduz definitivamente no universo da música eletrônica.
De lá pra cá, Madonna é fantástica. Perfeita. Implacável. Em 2005, foi a vez de "Confessions on a Dance Floor", o CD mais incrível de Madonna. Além da clássica "Hung Up" (com sample do Abba),temos a ultradançante "Sorry". Mas, ainda recomendo "Isaac" e "I Love New York", cheias de roupagens dançantes, misturando trechos a discoteca dos anos 70, de sons eletrônicos ou sonoridades orientais. Impossível cansar de "Confessions on a Dance Floor".

A volta do velho e traiçoeiro câncer



"Uma Prova de Amor", de 2009, é daqueles filmes para quem assiste, simplesmente, desabar. Bem como, "Lado a Lado" (de Julia Roberts e Susan Sarandon), é um roteiro dolorido, que aborda de forma emotiva, porém sempre muito honesta as dificuldades de lidar com o câncer. No início, temos a impressão de que o filme tratará de mais um dilema ético da ciência e do direito em tempos modernos. A pequena Anna Fitzgerald (Abigail Breslin de " A Pequena Miss Sunshine")abre o filme falando de seu drama pessoal. Anna foi concebida única e exclusivamente para salvar a vida de sua irmã Kate (Sofia Vassilieva), que sofre de leucemia. Sente-se usada, sente-se desvalorizada. Mas, com o decorrer do filme, não tem jeito. Os sentimentos, os dramas pessoais de Anna se tornam infinitamente pequenos diante das experiências de sua ainda jovem irmã Kate.
Mérito da atriz Sofia Vassilieva, que interpreta maravilhosamente bem a adolescente doente e mais ainda de Cameron Diaz, que encarna seu primeiro personagem de peso no cinema _o da mãe batalhadora Sara, que se torna obcecada pela sobrevivência da filha mais velha. Indo além, o filme também esbarra na temática de "Mar Adentro", em que viver se torna tão complicado, que escolher morrer se torna uma opçao plausível e racional. Esbarra também, com a mãe, no clássico desejo humano de tentar controlar as coisas e de sempre fracassar no final. Como pano de fundo destaco os sentimentos contraditórios, mas sempre muito leais e verdadeiros que ligam todos os personagens à Kate.