domingo, 28 de março de 2010

A missão gringa


Assisti "A Missão" (direção de Roland Joffé) pela primeira vez em 1987, quando tinha apenas 11 anos, para um trabalho de escola. Revi recentemente, mais de 20 anos depois e, politicamente, 20 vezes mais madura. É um dos poucos filmes que aborda de forma crua a matança indígena na América Latina durante a colonização. Sim, porque convenhamos que o assunto foi ignorado ou, no máximo, explorado de forma amenizada. No caso do cinema brasileiro, a colonização, bem como a história inteira do país, ganhou uma versão light, com cores alegres quase sempre. A versão pesada vem das mãos dos gringos, que historicamente exploraram a América e que somente mais recentemente têm mostrado algum interesse em corrigir as distorções causadas.
O filme mostra o papel importante dos padres jesuítas para conquistar a confiança dos índios durante a colonização. Na verdade, é uma aula e tanto de história, com tom crítico sem igual. A Igreja Católica, como em tantos outros momentos marcantes da História Mundial, desempenha um papel central, cheio de contradições internas e muita polêmica. Inicialmente, os padres jesuítas enfrentam todas as dificuldades naturais de um ambiente hostil e selvagem para converter os nativos à fé católica. Mas no fim, o que se vê é uma divisão dentro da igreja. Enquanto a cúpula cede aos mandos das coroas portuguesa e espanhola e trai a confiança dos índios, lavando suas mãos, a base católica tenta proteger as tribos a todo custo, criando pequenos núcleos de resistência dentro das florestas. É importante observar que a mesma igreja que vira as costas para os índios, como virou para os judeus durante o Holocausto, é aquela que os abriga e os defende como nenhuma outra instituição.
"A Missão" expõe o racha, que ainda hoje, existe de forma velada na Igreja Católica entre os engajados e os omissos à realidade social.
Fora isso, o filme também ganhou Palma de Ouro em Cannes, venceu o Oscar de melhor fotografia e conta com a atuação do gigante Robert de Niro, que interpreta um violento mercador de escravos. A participação de índios verdadeiros, nativos de tribos da Colômbia, foi uma audácia feliz do diretor Roland Joffé, que, aparentemente, tratou de forma cuidadosa os trâmites necessários como a contratação e a preparação diferenciada. O resultado ficou muito natural e impactante. Uma história de reflexão, culpa e vergonha por todos os danos causados às populações indígenas.

2 comentários:

  1. Preciso assistir de novo...10 anos depois.
    Bjs

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  2. Sim, aliás, acho que é preciso assistir a cada 10 anos porque a gente vai entendendo cada vez melhor as coisas rs

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