quinta-feira, 22 de abril de 2010

Ofegante


Além de causar mais uma boa e profunda reflexão sobre a irracionalidade dos conflitos humanos, o premiado "Guerra ao Terror" (direção de Kathryn Bigelow), Oscar de melhor filme em 2010, é um filme denso e ofegante,uma verdadeira tortura psicológica para quem assiste.
A história que mostra o dia a dia de um esquadrão anti-bomba do exército norte-americano no Iraque, expõe desde as diferenças hierárquicas até a insegurança como constante na vida dos soldados no Iraque. Já o close nas expressões dos soldados,o cenário de destruição, os diálogos éticos que permeiam o filme e a escolha de atores desconhecidos o tornam muito parecido com um documentário.
A agonia a quem assiste se dá porque a cada dia os soldados enfrentam uma nova situação limite em que ficam com suas vidas por um fio. E assim sucessivamente, perdendo amigos, perdendo "inimigos", vendo a tragédia humana a cada segundo.
Ainda, que alimentando a eterna ótica ianque dos soldados-heróis no cinema, "Guerra ao Terror" nos faz um favor ao escancarar de um jeito mais humano a situação delicada dos soldados, que, por uma questão de sobrevivência, convivem com o fantasma da desconfiança em tempo integral com relação aos iraquianos. Um martírio para os iraquianos _sem liberdade em sua própria terra_ e um martírio para os soldados _que ficam com a vida por um fio em uma terra estranha.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Living in Ecstasy


Finalmente no último sábado pude por as mãos no CD-DVD "Pandemonium" do Pet Shop Boys, que foi lançado em fevereiro em Londres, mas que só tem chegado às lojas brasileiras agora. Eu, que fui ao show em São Paulo, tinha certeza de que seria o melhor tour de Neil Tennant e Chris Lowe, o que vem se confirmando. Recentemente, eles anunciaram um prolongamento da tour em 2010, o que aparentemente não estava nos planos do duo. "Pandemonium" é tecnicamente arrojada, musicalmente talentosa. Cenários e figurinos futuristas à base de cubos, coreografias altamente criativas, quatro bailarinos impecáveis, projeções futuristas, um jogo potente com luzes e até chuva de papel picado margeiam o espetáculo de Tennant e Lowe. Nunca o PSB teve um show tão hight tech. Pandemonium superou as duas primeiras turnês que passaram pelo Brasil: "Discovery Tour"(1994) e "Fundamental Tour" (2007).
Mas, isso não é tudo. "Pandemonium", o DVD, teve uma qualidade de gravação efetivamente melhor do que a de "Night Life Tour", produzido no México. Imagens mais limpas, mais próximas, sem efeitos ou recortes, tudo em alta definição, nos trazem uma visão mais clara da performance de Lowe e Tennant.
Já do ponto de vista musical, o Pet Shop Boys parece ter criado uma solução para reaproveitar ao máximo seu repertório de 29 anos, em meio a tanta composição e tantos fãs de gerações diferentes. O jeito foi apostar do início ao fim de em mash-up, recurso que permite a fusão de duas músicas em uma só.
Por exemplo, logo na abertura, "Heart" (CD "Actually") vem com a introdução de "More Than a Dream" (CD "Yes", de 2009).
A música "Pandemonium" ("Yes") chega ao palco com uma introdução da velha "Can You Forgive Her" (do CD "Very", 1994) em ritmo de blues!
"Domino Dancing" (do CD "Introspective") molda a regravação de um trecho da belíssima "Viva La Vida", do Cold Play.
"Go West" (de "Very") vem com as batidas de "Paninaro".
Outra fórmula usada no show, essa sim já conhecida de outras turnês, foi a de voltar ao passado sem ficar preso a ele, reciclando sucessos mais do que consolidados como "Left To My Own Devices" (CD "Introspective", 1988), que ganhou uma roupagem maravilhosamente dançante.
Para quem é brasileiro ainda vale destacar o mimo de poder ver Tennant e Lowe executando "Se a Vida É", a única canção deles com uma frase em português, e ainda a novidade da vinheta que chama o Brasil nos jogos internacionais de futebol para a introdução de "Suburbia".
E dessa forma, quem ficar triste por não ver incluídas faixas incríveis como "King of Rome" ou "My October Simphony", dentre tantas músicas apaixonantes, poderá se divertir com novidades ao vivo como "Two Divided By Zero" ou "Do I Have To?", que normalmente não ficam fora do set list.
O show foi gravado no Arena O2, às vésperas do Natal de 2009, pouco depois da dupla ter retornado de sua passagem pela América Latina. Segue o trailler:

domingo, 11 de abril de 2010

Revira e volta



Eu adoro uma surpresa no cinema, mas tenho que admitir que surpreender o público não é uma missão fácil. Os riscos são muitos e das duas uma: ou o filme fica verdadeiramente surpreendente ou pode se tornar uma mistura de mediocridade com surrealismo.
Por exemplo, "A Estranha Perfeita" (direção de James Foley)é medíocre e surreal no meu entendimento, enquanto outro filme que trabalha os mesmos elementos, "Fora de Rumo"( do diretor Mikael Hafström), consegue, sim, ser um filme verdadeiramente surpreendente. Ambos exploram um clima sensual entrecortado por momentos de tensão.
No primeiro caso, nem a presença dos badalados Halle Berry e Bruce Willis poderia dar um jeitinho. "A Estranha Perfeita" começa bem, avança para o muito bem, mas no final passa do ponto e beira o rídiculo. Cá entre nós, um bom filme que se propõe a fazer suspense tem de expor todos os detalhes, todas as possibilidades para que o telespectador possa desenvolver suas próprias linhas de raciocínio. Se ao chegar no final, o roteiro traz uma série de detalhes não revelados, o público fica com uma sensação de deslealdade, de que jamais poderia desvendar os mistérios não por ter farejado errado, mas por não ter acesso à "investigação" inteira. Em "A Estranha Pefeita", a jornalista Rowena Price tenta descobrir quem matou sua amiga de infância, com grande possibilidade de ter sido um magnata da publicidade. Mas, ao longo da trama, as possibilidades mudam tanto, são tantas reviravoltas, que o final é absolutamente imprevisível muito mais pela falta de elementos de embasamento do que pela inteligência admirável do autor.
"Fora de Rumo" é um filme pelo qual ninguém daria nada. Charles Schine (Clive Owen)é casado e Lucinda Harris (Jennifer Aniston)também , mas se conhecem, se sentem atraídos e não resistem ao pecado do adultério. A diferença é que logo no início já ocorre a única reviravolta do fime, quando Schine descobre algo impensável dessa relação e passa quase toda a trama tentando sair da encrenca na qual se meteu. A rigor, uma história mais verossímil, mais ofegante, surpreendente mesmo com todos os elementos a que o público tem direito.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Coco pela metade


A não ser por mais uma excelente atuação de Audrey Tautou, "Coco Antes de Chanel" me parece um filme frio demais para tratar da vida de uma mulher, ainda mais quando esta mulher é de vanguarda como a estilista Gabrielle Chanel, a Coco. O filme, como propõe o título, mostra Coco antes da fama. As cena iniciais são muito belas e emotivas, mostram Coco e sua irmã, Adrienne, ainda pequenas sendo abandonadas em o orfanato pelo próprio pai e um pouco da expectativa que elas alimentaram de que ele um dia voltasse para resgatá-las. Mas, a partir daí, o filme se perde. Isso tudo ainda bem no começo. Detalhes importantes da infância de Coco são "pulados". Não se mostra, por exemplo, como se deu o contato de Coco com o mundo da costura, o que, aparentemente, teria ocorrido através das freiras do orfanato. O máximo que vemos é uma certa atenção demasiada da menina com relação ao corte e às cores dos hábitos das freiras, o que inspiraria mais tarde sua fixação por preto e branco. O filme é confuso, não deixa claro também se Coco é oportunista ou ingênua. Também senti falta de elementos tradicionais do cinema europeu como aquelas lacunas de silêncio, que só eles sabem colocar tão bem em um roteiro. O fato, porém, é que "Coco Antes de Chanel"teve ainda uma terceira falha relevante, senão devastadora para o filme: o final inconsistente. A glória de Channel, que é a sua grande volta por cima, e que é o momento esperado, fica apagada em uma cena depressiva em que a protagonista na prática ainda vê o amor ofuscar seus louros. Pode até ser que a minha visão seja conservadora, mas acho difícil que alguém não queira ver o final feliz de alguém que batalhou, ainda mais quando sabemos que este final feliz de fato aconteceu. Isso aconteceu em "Piaf, Um Hino Ao Amor", por exemplo, onde curiosamente a protagonista tem alguns pontos em comum com Coco, como o abandono na infância, a proximidade com bordéis e a França como cenário, é claro. Pelo menos do ponto de vista social e profissional, Chanel foi um ícone, quebrou tabus, bateu o pé até ser reconhecida e conseguiu. Mas, essa parte da história não faz parte do filme.

domingo, 4 de abril de 2010

Não Deixe o Tango Morrer


O tango está para Buenos Aires-Montevidéu como o samba está para Rio de Janeiro-São Paulo. Essa comparação, que poderia ser feita em qualquer conversa rasa de bar, fica mais fácil de se assimilar quando assistimos o documentário sobre tango "Café de Los Maestros" (traduzido no Brasil para "Café dos Maestros"). Não estamos falando simplesmente de ritmos. São, praticamente, estilos de vida. Mais: verdadeiros elementos de resistência em um continente varrido pelo colonialismo. "Café dos Maestros" foi idealizado e dirigido por Gustavo Santaollala, que venceu o Oscar por canções em "Diários de Motocicleta", "O Segredo de Brokeback Mountain" e "Babel". O documentário ainda traz umas pitadas de Brasil com co-produção de Walter Salles Júnior e patrocínio da Petrobras.
É uma viagem de descobertas fascinantes. Sim, porque o tango, bem como o samba, tem uma história imensa, com um repertório gigante e músicos absolutamente apaixonados. O documentário reúne a nata de "tangueiros" dos anos 40 e 50, hoje já velhinhos, porém com o mesmo vigor musical. Estamos falando Leopoldo Federico, Lágrima Ríos e seu violonista Aníbal Arias, do dueto Libertella e José Luis Stazo, do pianista Carlos García, dentre outros nomes. Para nós, brasileiros _que em média temos um conhecimento superficial sobre o tango_ o documentário reafirma justamente o fato de conhecermos somente a pontinha de um verdadeiro iceberg cultural. Já na Argentina e no Uruguai, essas figuras, merecidamente, ainda hoje são amadas por um público saudoso, que reúne fãs de gerações diferentes. Ao final,uma apresentação no teatro Cólon (Buenos Aires) mostra um a um estes astros de cabelos grisalhos, que jamais se aposentarão do tango.

sábado, 3 de abril de 2010

Os arquivos de Lilly Rush


Existe um seriado policial chamado "Cold Case" (traduzido para "Arquivo Morto" no Brasil)que tem sido um verdadeiro vício para mim nos últimos três anos. O mote da série é o dia a dia de um departamento da polícia da Filadélfia, que se especializa em reabrir casos de homícios arquivados sem solução. A maioria dos crimes ocorreu entre 1950 e 2005. Os episódios, sob a direção de Jerry Bruckheimer, pinçam uma brecha na Justiça. Os roteiros sempre mostram familiares, amigos, conhecidos engasgados com o sistema por perderem alguém querido e nunca terem visto alguém ser preso pelo crime. Logicamente, é um seriado que tem suspense, mas diria que seu grande atrativo é o aspecto emocional.
Se nos EUA, arquivar investigações de homicídios já é algo comum _como mostra o seriado_ imagine no Brasil, onde convivemos com uma avalanche de injustiças. Neste sentido "Cold Case" tem a mesma receita do brasileiro e jornalístico "Linha Direta", que trabalhava com casos verídicos e que era muito bem produzido diga-se de passagem (exibido entre 1999 e 2008).
Um diferencial de outros seriados é que "Cold Case" faz um jogo entre presente e passado, rejuvenescendo e envelhecendo personagens, cenários, costumes e até as músicas. Tudo é reconstituído nas lembranças dos personagens que prestam depoimento e, geralmente, com os mesmos atores. A técnica é excelente e nessas idas e vindas, é possível se deparar com elementos culturais importantes de cada época como o feminismo, racismo, Ku Klux Klan, hierarquias, narcóticos, estereótipos, anabolizantes A trama é sempre tão bem amarrada, que nos primeiros episódios que assisti, cheguei a ficar em dúvida se não se tratava de histórias reais.
A protagonista Lilly Rush (Kathryn Morris)é uma mulher solitária e cheia de limitações em sua vida pessoal, mas altamente determinada a trabalhar duro no meio de policiais durões e assassinos mentirosos.
Voltando à música, o "Cold Case" é o seriado que sabe usá-la para enriquecer suas tramas como nenhum outro. Primeiro porque os episódios são regados a ambientações moldadas por elas. Vamos aos anos 50 com Jerry Lee Lewis, aos 80 com Depeche Mode, aos anos 90 com Nirvana. E no final, sempre bem sucedido, existe uma música com uma mensagem de justiça e esperança para dar um toque final.
E sempre ao som de uma bela música que Lilly ou um seus parceiros, como Scotty Valens (Danny Pino), têm visões da vítima agora satisfeita com a Justiça sendo colocada em prática, o que pode ser entendido como um emblema espírita ou nada mais que um toque de imaginação num momento de alívio, quando a vítima supostamente descansará em paz.

SBT:
* Segunda à sexta-feira, logo após Uma Rosa Com Amor, às 21:15 - 1ª temporada -
* Domingo, logo após Harper's Island, às 01:00 - 4ª temporada

Warner Channel:
* Segunda-feira, às 21:00 - 7ª temporada