terça-feira, 29 de junho de 2010

Uma delícia de filme


"Julie & Julia", de 2009, poderia abrir diálogos ricos sobre pontos existenciais como o vazio interior dos trabalhadores em tempos modernos, a interferência positiva ou negativa de ídolos que cultivamos, a importância da tecnologia no dia a dia. Mas, faz mais do que isso, explora as tranformações do universo feminio, as dúvidas, dores, angústias das mulheres nos últimos 50 anos e até mesmo a reaproximação entre o universo feminino moderno e a culinária. Desde que os sutiãs foram queimados por conta da revolução feminista, a cozinha passou a ser vista como um elemento cultural arraigado ao passado. Desde que a mulher caiu de vez no mercado de trabalho, o fato de não saber, não precisar e não querer cozinhar passou a ser ostentado quase como uma bandeira, da qual se tem orgulho. São poucas as mulheres, especialmente as mais jovens, que passaram ilesas por este conceito. Não foi à toa que muitos homens começaram a ir pra cozinha de bom grado (na chamada era da cozinha Gourmet). No inconsciente coletivo das mulheres, o avental ainda seria as amarras da dona de casa, um verdadeiro trauma feminino, que começa a ser trabalhado. O ato de cozinhar, talvez injustamente abominado por anos, começa a ser repensado. A mulher repaginada, moderna, independente, começa a redescobrir a cozinha, não mais como uma obrigação, mas como um prazer. O filme mostra todas as transformações embutidas na relação das mulheres com o tempo, com as pessoas, com o trabalho, com a cozinha através das rotinas paralelas de Julia (Meryl Streep) em 1948 e Julie (Amy Adams)em 2002. Julia uma dona de casa, de visão Pollyanna, que acaba de se mudar para Paris e procura ocupar o seu tempo aprendendo gastronomia e depois batalhando por publicar um livro de receitas. Julie uma novaiorquina atarefada, altamente estressada com o trabalho, que procura um sentido para sua vida e resolve escrever um blog sobre culinária inspirado nas receitas de Julia. Nada ficou intacto nesses anos todos: o fogão e as panelas não são mais os mesmo, os pensamentos também não.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A Cor do Oriente


Um dos exercícios mais pertinentes e prazerosos que o cinema nos permite é o de buscar formas artísticas diferenciadas para se narrar fatos semelhantes. "A Cor do Paraíso", um filme iraniano, pode ter passado despercebido aos olhos de quem está acostumado respirar o cinema americano, com toda a sua faceta ocidental. Mas, eu diria que nunca é tarde para rever isso e se surpreender com uma obra que poderia estar escondida nas prateleiras das locadoras, sem cartazes ou tapete vermelho na Academia (que indica e entrega o Oscar). O roteiro trata da vida do pequeno Mohammad, um menino com deficiência visual, que consegue suprí-la através de sua perspicácia. Sábio, curioso e alegre, Mohammad é aceito em todos os níveis da sociedade, por todos os nichos onde frequenta, mas encontra a maior barreira de aceitação dentro de seu próprio lar, com o pai. Viúvo, solitário, Hashem, o pai, tem mais duas filhas e conta com sua mãe idosa para ajudá-lo, um homem obcecado com a ideia de poder se casar novamente. Mohammad e sua avó se destacam como personagens incrivelmente versáteis e habilidosos com suas vidas difíceis: ele por não poder enxergar, ela por trabalhar no campo e ter idade avançada. Enquanto Hashem é um personagem mais complexo, denso, que sofre, invariavelmente, não por limitações físicas, mas pelas psicológicas, indiscutivelmente mais crueis neste caso. Hashem é tão contraditório, que me pergunto se ele, sim, não seria o protagonista ofuscado pelo tocante Mohammad. Majid Majidi, o diretor, consegue sintetizar em três personagens o que há de mais admirável e de mais obscuro na raça humana. Tudo isso com uma fotografia espetacular nos apresentando a bela e surpreendente paisagem iraniana, que inclui de rios, matas e mares à cultura em torno da tapeçaria.

sábado, 19 de junho de 2010

Martinho lá da Vila



Se os mais céticos já não têm muitos motivos para se orgulhar do Brasil, que celebrem, pelo menos, o fato de terem brasileiros dos quais se orgulhar. Martinho da Vila é um desses brasileiros, um nome do qual podemos e até devemos ter orgulho. Na semana passada vi o show de Martinho na Feira do Livro de Ribeirão Preto, uma aula de diversão e leveza. Há controvérsias sobre o tamanho do público, já que o show aconteceu a céu aberto, na esplanada do Theatro Pedro II. Um dos fatos que chamou a atenção foi a presença de um público muito eclético e diversificado. De intelectuais saídos dos condomínios fechados na zona Sul até a molecada de celular ultramoderno da periferia. Martinho é o cara. Faz samba de alta qualidade muscial, com letras simples e altamente populares. No show, trouxe sua faceta mais romântica, brincando com arranjos, desconstruíndo as entranhas do samba. Mas, também relembrou com maestria, como se esperava, sucessos como "Madalena", "Devagar". "Canta, Canta, Minha Gente", "Mulheres", "Disritmia" e a pra lá de clássica "Casa de Bamba". São 46 CDs gravados em uma carreira incansável, que começou em 1969.Com 72 anos, Martinho mantém sua voz arrebatadora, alegria contagiante e gingado impecável. No dia seguinte porém, Martinho ainda deu uma palestra para falar um pouco sobre seu ainda desconhecido trabalho como escritor. São nove livros publicados. Uns infantis e outros para adultos, com temáticas mais politizadas. Não se enganem os mais céticos com Martinho, por trás do cara sorridente e sossegado, que adora cantar o amor e as coisas simples da vida, existe um homem intelectualizado, crítico e preocupado com o preconceito racial e social neste seu pobre país. Dá gosto de ver Martinho, duro, sem perder a ternura.


Segue a lista de livros do Martinho:
"Vamos Brincar de política?" Infanto-juvenil
"Kizombas, andanças e festanças" Auto Biográfico
"Joana e Joanes, um romance fluminense" Romance
"Memórias póstumas de Teresa de Jesus" Romance
"Os Lusófonos" Romance
"Vermelho 17" Romance
"A Rosa Vermelha e o Cravo Branco" Infantil
"A serra do rola-moça" Romance
"A rainha da bateria" Infantil