segunda-feira, 28 de junho de 2010

A Cor do Oriente


Um dos exercícios mais pertinentes e prazerosos que o cinema nos permite é o de buscar formas artísticas diferenciadas para se narrar fatos semelhantes. "A Cor do Paraíso", um filme iraniano, pode ter passado despercebido aos olhos de quem está acostumado respirar o cinema americano, com toda a sua faceta ocidental. Mas, eu diria que nunca é tarde para rever isso e se surpreender com uma obra que poderia estar escondida nas prateleiras das locadoras, sem cartazes ou tapete vermelho na Academia (que indica e entrega o Oscar). O roteiro trata da vida do pequeno Mohammad, um menino com deficiência visual, que consegue suprí-la através de sua perspicácia. Sábio, curioso e alegre, Mohammad é aceito em todos os níveis da sociedade, por todos os nichos onde frequenta, mas encontra a maior barreira de aceitação dentro de seu próprio lar, com o pai. Viúvo, solitário, Hashem, o pai, tem mais duas filhas e conta com sua mãe idosa para ajudá-lo, um homem obcecado com a ideia de poder se casar novamente. Mohammad e sua avó se destacam como personagens incrivelmente versáteis e habilidosos com suas vidas difíceis: ele por não poder enxergar, ela por trabalhar no campo e ter idade avançada. Enquanto Hashem é um personagem mais complexo, denso, que sofre, invariavelmente, não por limitações físicas, mas pelas psicológicas, indiscutivelmente mais crueis neste caso. Hashem é tão contraditório, que me pergunto se ele, sim, não seria o protagonista ofuscado pelo tocante Mohammad. Majid Majidi, o diretor, consegue sintetizar em três personagens o que há de mais admirável e de mais obscuro na raça humana. Tudo isso com uma fotografia espetacular nos apresentando a bela e surpreendente paisagem iraniana, que inclui de rios, matas e mares à cultura em torno da tapeçaria.

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